28 fevereiro 2011

A Puta - Imaginária ou Não

Hoje fui assistir ao filme Bruna Surfistinha.


Depois de terminado, saí literalmente correndo do cinema, a cabeça cheia de pensamentos. Corri para casa, e no caminho tive medo de que os pensamentos se dispersassem, que caíssem da minha cabeça, que quando eu finalmente pudesse escrever sobre eles já não restasse nada.

O filme me fez pensar mais uma vez sobre como por trás de cada puta existe sempre um filho da puta.

Ao contrário da maioria das pessoas que assistiam ao filme, não achei graça nenhuma da cena em que ela vai para a armadilha na casa do colega de escola e é obrigada a lhe fazer um boquete. Foi uma cena clássica que qualquer garotinha pode relatar, protagonizada por um moleque covarde que virou um homem covarde e se transformará em um cadáver covarde, porque se é covarde do começo ao fim.

Não sei o que mais ajudou a transformar a Raquel em Bruna, mas a Bruna (real ou imaginária) é uma grande mulher. E o homem que está com ela hoje é exatamente o avesso do covarde, porque também quem nasce com coragem vive com coragem e morre com coragem.

Pelo tamanho da fila no cinema e a ansiedade em que as pessoas aguardavam não pude deixar de pensar sobre a razão de tanta curiosidade. Havia jovens, velhos, casais e muitas, muitas mulheres assistindo ao filme. E apostaria que nem todos estavam ali apenas para ver os peitos da Deborah Secco.

Porque a Puta* (e escrevo com letra maiúscula porque me refiro à Puta simbólica e não apenas à Surfistinha) desperta tanta curiosidade? O que as mulheres que ali estavam queriam ver? O que eu mesma fui ver, o que eu mesma buscava?

Acho que toda mulher deseja tremendamente ser Puta. Isso não quer dizer que todas nós queiramos trocar gemidos, falsos ou não, por dinheiro vivo.

Vejamos quem é a Puta. Em primeiro lugar ela é livre de todas as amarras impostas pela sociedade. A Puta é livre, a Puta não tem obrigações morais. A Puta faz tudo o que quiser, dentro e fora da cama.

Mas, principalmente, a Puta é PODEROSA. A sexualidade feminina levada ao extremo pela Puta a torna possuidora de um pode arrebatador. Teriam as mulheres medo desse poder?

A Puta é o inverso da Santa, é o oposto da mãe.

Em uma cena, Bruna fala que os homens não consideram traição transar com puta. Já ouvi muito essa frase vinda de homens.

Mas teoricamente a traição é o sexo com outra pessoa, não importa a sua profissão. Então porque eles não consideram sexo com a puta uma traição? Talvez porque não haja envolvimento emocional, talvez porque considerem a puta apenas uma prestadora de serviços, da mesma forma que um marceneiro, por exemplo.

Ou porque a puta talvez lhes pareça tão insignificante quanto o poste em que eles mijam quando não encontram banheiro a tempo.

Ainda não tenho a resposta sobre as mulheres temerem ou não o poder da sua própria sexualidade, talvez jamais tenha. Posso falar apenas por mim, e a temo, certamente.

Sei que nesse mundo, quanto mais santa você parecer, mais chances terá de conseguir o pacote marido/filhos/cachorro. E seu marido continuará procurando as Putas, assim como você.




* muita gente comentou o texto pessoalmente, no Facebook e no twitter e nem todos entenderam muito bem o que eu quis dizer com Puta (com P maiúsculo). Essa Puta é a Puta imaginária, uma mulher livre e dona da sua sexualidade. Ela é dona de uma liberdade e sexualidade selvagens, instintivas e primitivas. Ficou claro?

06 fevereiro 2011

Me Encolheram, Me esticaram - A Alice Errada

Ando me sentindo como Alice, acusada de ser grande demais ou ser pequena demais, de ser Alice e de não ser Alice.


Nunca entendi porque, mas quase todas as pessoas que passam pela minha vida querem me modificar de alguma maneira. Especialmente os homens.

Não sei se isso acontece com as outras pessoas e elas resistem e eu, por antes de nascer já ter sido acusada de ser a Alice errada, acabo sempre achando que estou errada e fazendo de tudo para mudar. Isso me angustia profundamente porque quando acho que estou sendo a Alice certa alguém aponta o dedo e diz que sou a Alice errada novamente. E o ciclo se repete.

Mas se esse sonho é meu como posso ser a Alice errada?

A pergunta é perturbadora. Talvez o sonho não seja meu, o que quer dizer que eu esteja sonhando o sonho de outra pessoa. Isso me remete novamente ao útero materno, que minha mãe achava não ser meu lugar. Invadi o sonho dela, posso ter eu invadido o mundo-sonho de pessoas que também não desejam minha presença?