Meu trabalho feizmente tem-me feito viajar por todo o interior de Minas.
Conheci Ouro Preto, Tiradentes, o famoso Triângulo, Ipatinga e a desconhecida Manhuaçú.
Em Ipatinga participei de um jantar em que fiz a harmonização, no Acqua Wine Bar. Já conhecia o lugar, mas durante o tempo em que estive lá tive a oportunidade de conhecer melhor as pessoas envolvidas com o restaurante. O dono, Valdecir, é um simpático chef apaixonado pelo que faz. Ele morou um tempo nos Estados Unidos, e para lá foi também um dos seus garçons, o Vinny.
No dia do evento estava presente um pequeno empresário local, trabalhando como garçom. E estava lá porque, como o Vinny e como o Valdecir, tem uma história de amor com a gastronomia. Essa história começou há anos atrás, com a inauguração de uma pizzaria, a Dona Dora. Todos se apaixonaram pela culinária e pelos vinhos por lá.
Foi um privilégio poder ouvir as histórias sobre esse tempo. Estávamos no fim da noite, apenas alguns clientes já muito à vontade e algumas garrafas de vinho abertas.
Não eram patrão e empregados, eram amigos contando para uma estranha sobre suas amizades e suas paixões. Vi olhos brilhando e fiquei comovida.
Em Manhuaçú fui recebida com minha colega em uma confraria onde eu daria um curso. Chegamos cansadas e sem conhecer nada, mas o gentil presidente da confraria foi até o hotel para nos guiar até o local do evento. Fomos recepcionadas por 25 pessoas muito simpáticas e que fizeram todo o esforço para nos agradar.
Depois da palestra fomos convidadas para jantar. No restaurante soube um pouquinho da história de alguns dos confrades. Todos eles estavam ligados à produção de café de alguma forma, e um deles fez questão de nos presentear com um café gourmet ganhador de diversos prêmios internacionais (ai de mim que depois dele não consigo mais achar graça nos outros!). Além do café, a paixão dessas pessoas é o vinho. Confesso que foi difícil sair de lá. Tive vontade de ficar mais, ouvir mais histórias.
Voltamos leves e felizes para Belo Horizonte onde continuamos nossas vidas diárias na presença do vinho.O café tem lá seus atrativos, mas que outra bebida além do vinho pode unir tanto as pessoas?
07 Julho 2009
Andanças - Vontade de Ficar Por Lá
11 Junho 2009
Em Ninho de Cobras - Rolamento
Há uns dias fui obrigada a fazer uma coisa que detesto fazer, com todas as minhas forças: degustar com enochatos.
Dentre os 14 vinhos degustados, um deles foi o Bicicleta Riesling, um vinho bacana da Cono Sur, chileno.
Metade das pessoas que estava degustando comigo eram profissionais do vinho e a outra metade estava intimidada o suficiente para sair dali e ir para um boteco beber cerveja.
Claro que os profissionais fizeram questão de desfiar todo o seu conhecimento, sem deixar espaço para que os principiantes relaxassem e pudessem dizer o que sentiam sem serem pressionados ou sentirem-se verdadeiros idiotas.
A cada minuto eu tinha vontade de sair correndo dali, mas como estava trabalhando, fiz a respiração completa e mentalmente murmurei o OM.
Mas em determinado momento não pude me conter. Foi quando um sommelier disse que sentiu cheiro de graxa no Riesling, e todos concordaram.
Eu respondi que era totalmente compreensível. O cheiro só podia estar vindo do rolamento da bicicleta!
P.S.: Eu posso acreditar que exista até mesmo cheiro da bota de quem colheu as uvas. O que não consigo engolir é que todo mundo sinta esse aroma apenas depois que ele é mencionado...
28 Maio 2009
Amores Passageiros - Sobre a Duração das Coisas
Hoje eu acordei de um sono pesado e cheio de sonhos. Tive um dia exaustivo no trabalho, muita coisa para fazer e pouco tempo. Tudo exigia muita concentração e cuidado, mas a cabeça só doía.
Então, no final da tarde um colega levou até a minha mesa uma taça de um espumante moscatel produzido no Vale do São Francisco.
Não perguntou a minha opinião sobre o vinho, apenas me entregou a taça. Provando o vinho adocicado pensei sobre a duração das coisas.
Foi muito bom naquele momento de cansaço poder beber um vinho tão simples, dispensar a análise da cor, dos aromas e do seu sabor na boca.
Amo os vinhos complexos mas as vezes tudo o que quero é a simplicidade.
Não desejo que todos os beijos sejam inesquecíveis. Não quero levar na memória todos os encontros que tive e ainda vou ter, todos os homens pelos quais me apaixonei e que talvez ainda me apaixone.
Quero ter muitos momentos inesquecíveis, mas também quero alegrias passageiras e vinhos passageiros.
Quero um vinho que me divirta por um momento, como quando vejo uma cena engraçada e minutos depois a esqueço.
Quero encontros rápidos e relaxantes com alguns vinhos. Quero passar momentos agradáveis e sem cobranças com vinhos macios e ligeiros.
Os vinhos não exigem exclusividade. Posso ter um grande vinho inesquecível e um caso passageiro e divertido com outro.
Promiscuidade no vinho não é pecado.
26 Maio 2009
Auto Análise - Jogando Com as Cartas Recebidas
Paulo Queiroz, do Nosso Vinho, deixou um comentário por aqui pedindo o retorno e afirmando que não tenho apenas 3 leitores.
Bem, eu nunca fui muito boa em matemática, e quanto à volta, aqui estou eu!
Depois do desmoronamento da minha vida com a morte do meu pai eu realmente fiquei perdida e sem saber muito bem o que fazer ou, ainda pior: PORQUÊ fazer.
Não me recuperei. É como um amigo disse: a gente não sara, apenas acostuma com a dor.
Houve dias em que pensei que a dor estivesse aumentando exponencialmente e que em breve eu seria apenas uma chaga perambulante.
Meu ser todo, incluindo os músculos, os dentes, os olhos e o restante de todo o meu corpo continuam doendo de uma maneira praticamente insuportável, como se a dor fosse um espírito e estivesse agarrado em meu pescoço pesando toneladas.
Mas numa noite dessas uma voz falou comigo. É minha velha amiga, uma outra Gil muito mais sábia que eu e que me habita, mas só fala comigo quando preciso.
E ela disse "Você é forte" e apenas isso. Mas foi o suficiente para lembrar-me da sua existência e para me fazer recordar de onde eu vim e reconhecer, como nunca havia reconhecido, que mereço ter orgulho de mim mesma. Que DEVO ter orgulho de mim por tudo o que já passei e superei.
Vim de uma cidade esquecida pela humanidade e de uma família simples. Não tive grandes oportunidades, comecei a trabalhar aos 13 anos em um salão de beleza onde minhas patroas costumavam me chamar de burra e retardada.
Andava 18 km por dia entre a ida para o trabalho, volta para o almoço e ida para o colégio onde estudava à noite e voltava sozinha, sempre morrendo de medo e assustada com as frequentes notícias de estupro.
Quando casada fui morar em um bairro onde com muito esforço construí a minha casa que era frequentemente atacada por pedradas pelos vizinhos, quase todos fazendo parte das gangues locais. Eu era obrigada a dormir sempre alerta e com uma espingarda emprestada do lado.
Um rapaz, vizinho da frente e conhecido matador acompanhava-me com o olhar sempre que eu saía para o trabalho. Seus olhos tinham um ódio desumano e eu me perguntava a razão para ele me odiar tanto.
Depois da separação de um casamento de 8 anos, senti-me posta em um mundo que eu não conhecia mais e entrei em uma profunda depressão. Na época eu trabalhava em um hotel em que a dona contava os grãos de uva servidos no café da manhã e a quantidade exata de copinhos de café da garrafa que ficava na recepção. Em um mês emagreci 11 kilos e numa noite em que nada mais fazia sentido a minha melhor amiga dormiu comigo e acordou durante toda a noite me tocando e verificando a minha respiração.
Quando eu vou dar um treinamento e ouço os garçons reclamando sobre a falta de taças adequadas, bom senso, decanters, gerentes eficientes ou sei-lá-mais-quê, costumo dizer "A gente joga com as cartas que recebeu, e não com as que gostaria de ter recebido".
Eu queria que tudo fosse diferente, queria voltar ao passado e ajudar meu pai com o parreiral que nunca deu boas uvas e convencê-lo a não trabalhar mais depois de aposentado. Mas não recebi as cartas certas.
De qualquer modo eu tenho cartas e mesmo que não chegue a ganhar vou usá-las da melhor forma possível.
07 Maio 2009
Perda - Inominável
Meus caríssimos três leitores, quem me acompanha mais de perto sabe a razão do meu sumiço do blog. Mas para os que não me conhecem acho que passou da hora de "prestar contas".
Meu pai foi brutalmente assassinado por uma gangue de marginais da cidade de Palmas, no Paraná, onde mora a minha família.
Por longuíssimos 4 dias eu e todos os meus familiares vivemos um pesadelo, enquanto ele estava no CTI da cidade de Pato Branco. Os médicoos, desde o primeiro dia fizeram tudo o que estava ao seu alcance e não deram esperança, pois ele já estava com morte cerebral declarada. Mas nos apegamos à esperança de um milagre, que não aconteceu.
Agora, a cada manhã, depois de acordar eu tenho que lembrar que meu pai está morto. Não tenho palavras para descrever a dor brutal da perda, da revolta, da vontade de voltar no tempo, do medo de acontecer novamente com mais alguém, da sensação de impotência. E saudade, meu deus! Como descrever essa saudade?!
Eu amava os dedos do meu pai. Tinham juntas grossas e eram meio curvados. As unhas eram feias e grossas, sempre lascadas. Apesar disso suas mãos eram incrivelmente habilidosas.
Adorava vê-lo preparando o chimarrão com aqueles dedos curvos.
Ele sempre deixava sobre a erva apenas um furo que fazia com o indicador. E lá introduzia a bomba do chimarrão. Perdi a conta das vezes que ele tentou me ensinar e como ria quando eu fazia a erva desmoronar toda quando colocava meu dedo fino e de unha bem feita.
Quando criança, lembro de meu pai equilibrando a vassoura na ponta do dedo. E depois, equilibrando o escovão, um objeto com um cabo de vassoura e um grande ferro pesado na ponta, usado para lustrar piso de madeira. Lembro de como ele se concentrava e como seus músculos ficavam tensos com o peso do escovão. Ele adorava fazer isso para me divertir. Lembro das plantas de casa que ele fazia. Era um engenheiro habilidoso sem ter passado da quarta série. De como me ensinou a andar de bicicleta, segurando-na pela garupa enquanto eu pedalava. Um dia ele soltou a garupa e quando eu falei com ele, não respondeu. Virei e vi que ele estava longe, dando tchau e sorrindo. E eu estava andando sozinha.
Lembro de vê-lo sempre com um livro na mão e de como ele sempre foi extremamente culto e sábio. E de como viveu sempre dignamente. Lembro de um dia ele ter ganhado numa rifa um enorme papai-noel de chocolate, e que diante de uma pessoa que o acusou de ter ganho o sorteio de forma suspeita, ele dividiu todo o chocolate de forma exatamente igual e deu um pedaço para cada pessoa que havia comprado um número, inclusive quem o acusou. E de como ele, como gerente da serraria, recebia a melhor cesta de natal da empresa e todo ano, invariavelmente, dava essa cesta para uma família que morava por perto e não fazia parte do quadro de funcionários.
Lembro de como ele salvava os bichinhos das mãos daqueles que queriam matá-los, de como sempre detestou animais presos e das dúzias de periquitos que tivemos em casa e eram criados soltos, em cima da parreira que, apesar de tanto esforço do meu pai, nunca deu muitas uvas.
Lembro do dia em que eu, ainda aprendendo a ler, perguntei o que estava escrito em uma placa. Ele leu devagar e depois disse que em breve eu saberia ler e então finalmente eu seria "independente". Ele não poderia estar mais correto.
Não lembro de jamais meu pai ter feito alguma coisa ruim ou dado um mal exemplo. As crianças todas sempre o amaram. Quem o conheceu jamais esqueceu. Seu olhar era todo bondade e humanidade. Meu pai era extremamente brincalhão e eu lembro tão bem de como sua expressão mudava quando ele estava prestes a contar uma piada! E como ele conhecia piadas! E como eu adorava ver aquela expressão em seu rosto!
Sei que nada nem ninguém vai tirar isso de mim nem de ninguém que o conheceu. Sei que os malditos assassinos apagaram cruelmente o futuro do meu pai, mas não o seu passado, não a vida digna que ele sempre levou. Meu pai teve uma vida duríssima desde sempre. E morreu de uma maneira duríssima, também. Mas ele sempre foi a prova de que é possível viver com dignidade e ser uma pessoa correta apesar de tudo conspirar contra isso. O exemplo de vida do meu pai não vai morrer jamais, só vai frutificar e se espalhar, bem mais que os maus exemplos que vemos todos os dias.
05 Abril 2009
Estado de Minas - Abstraindo Coisas
Mais uma vez saiu uma matéria sobre vinhos na qual eu apareço. Sim! Podem me pedir autógrafo enquanto ele está baratinho, hehe.
E como era de se esperar, nem tudo o que falei foi completamente entendido pela jornalista. Mas quem lê esse blog, saberá!
Eu sugeri vinhos de Chardonnay de ÓTIMA QUALIDADE, além de BARRICADOS. E não tenho notícias de um vinho assim muito barato...
Os Pinots que sugeri DEVEM ser do Velho Mundo.
Na foto omiti alguns dados. A foto sem censura, onde apareço pelada com todas as minhas estrias à mostra, está no E Daí? para os convidados que tiverem coragem e estômago forte.
Eu enviei os convites para alguns leitores e seguidores desse blog, mas se você não recebeu, por favor, deixe um comentário com seu e-mail atualizado, pois nem todos os endereços que eu tenho são recentes.
E, por favor, se você chegou até aqui leia o post abaixo, pleeeeeease!
Informação - Tudo e Nada
Uma das coisas a respeito do Mundo do Vinho que me irrita profundamente é sobre as informações que circulam (ou não).
Os livros costumam ser exaustivamente repetitivos e os sites, da mesma forma. Alguns autores escrevem coisas que me deixam de cabelo em pé. Como falar das características das uvas como se essas fossem imutáveis, "esquecendo" da enorme gama de variações de sabores e aromas, consequencia do terroir, da manipulação das uvas na vinícola e mais uma série de fatores.
Outros apenas degustam os vinhos e lhes dão as famigeradas notas e comentários por vezes parecendo poesia, ou uma matemática precisa que misteriosamente transforma a degustação em ciência exata.
Poucos escrevem de maneira fácil, mas sem subestimar a inteligência do leitor. E ainda bem que eles existem!
Tenho alguns livros de cabeceira e autores que gosto muito.O primeiro é meu livro de consultas: Vinhos do Mundo Todo. Bem organizado, bem dividido, traz informações úteis e é incrivelmente prático. Especialmente quando me dá aquele branco que causa um estrago parecido com o sumiço dos índios pela mesma causa.
A História do Vinho, do Hugh Johnson foi um verdadeiro achado. Estava querendo o livro havia meses, mas não tinha nem dinheiro, nem coragem de pagar R$ 250,00 por ele. Aí encontrei-o em um sebo paulista por R$50,00. Super completo e ilustrado, o livro é um show!
O Julgamento de Paris eu acabei lendo em uma cópia quando ainda fazia o curso e depois comprei o original. É um livro daqueles que te faz pensar "ah, mas então é assim que isso funciona!". Essencial. É impossível entender o vinho sem lê-lo.
Quando a "onda" do vinho biodinâmico começou, comprei o Vinho do Céu à Terra, do Nicolas Joly. Mas não sei se pela tradução visivelmente capenga ou pela forma como ele escreve, está sendo muito tedioso lê-lo.
O Connaisseur Acidental pretende fazer uma viagem "irreverente" pela subjetividade do gosto. Parece que o autor não chega até lá em linha reta, mas os desvios também são bastante agradáveis.
Vinho e Guerra fez-me mudar a visão que eu tinha dos franceses e perceber um bocado de coisas que não levava em conta antes do livro. O casal que o escreveu o fez de uma maneira um tanto romântica, o que me deixou meio apreensiva. Mas depois percebi que se a história contada não fosse envolvente, o leitor não poderia entender o que aconteceu.
Também tenho O Imperador do Vinho. E, juro!, li da forma mais isenta possível. E foi com imenso prazer que em uma viagem, vi o livro num aeroporto sendo vendido junto com inúmeros outros livrecos banais por R$ 9,90. Pequena vingança, grande significado! Tenho também o Guia Descorchados, porque preciso, mas não porque gosto. E tenho os livros do Luís Groff (O Veríssimo do vinho!) para lembrar-me que vinho é divertido e que é preciso fazer piada de si mesmo para não se tornar um desses coitados enochatos sem escrúpulos.
Os outros livros que estão na minha mira agora são o A História do Mundo em Seis Copos, O Vinho Mais Caro da História, Champagne, Confissões de Uma Amante de Vinhos, e Presença do Vinho No Brasil. Com esse último eu convivi por quase um ano quando trabalhava em uma loja de vinhos, mas como eram horas e mais horas trabalhando sem parar, nunca consegui lê-lo, apenas folheá-lo.
Estou digitalizando todos os meus livros e vou colocá-los à disposição na internet, no meu trabalho e em cada restaurante em que eu der treinamento. Porque se existe uma coisa que eu odeie mais que a eterna repetição de informações é a sua não circulação.
29 Março 2009
Dissimulação e Profissionalismo - Atitudes
Há pouco menos de 2 meses deixei o restaurante em que trabalhava. Já não há mais um restaurante por lá.
Apesar de todas as dificuldades que encontrei, senti muito ter saído. Posso dizer que aprendi demais naquele emprego. Aprendi a confiar no meu trabalho, aprendi que sou capaz, muito capaz. Mas aprendi também que não devo confiar nos colegas de profissão. Infelizmente.
Quando saí do The Art me dei ao luxo de ter, por conta própria, um mês de férias muito merecidas. Um mês longe do Mundo do Vinho e longe dos colegas de profissão.
Precisava de um tempo para ficar perto dos meus amigos e namorado. E de um tempo para, como na Yoga, desligar os pensamentos para que a intuição possa mostrar o caminho.
A escapada de carnaval que dou com meus amigos para um lugar lindo e isolado é o período do ano que me faz sentir renovada e pronta pra outra.
Esse ano não foi diferente. Percebi o que há de importante na minha vida e o que vale mais. Meus amigos, namorado, família, gatos. O vinho se encaixa no meio disso tudo. É importantíssimo para mim, tão importante que não vou permitir que o que ele significa seja corrompido.
Para evitar que isso aconteça, tomei algumas atitudes. A primeira é não depender exclusivamente do vinho para sobreviver. Assim posso mandar às favas quem se atrever a me mandar pensar o que não penso. Com minhas amigas criei o Língua de Trapo, uma pequena fábrica de artesanato. Ela ainda está ganhando forma e deve demorar um tempo para estar a todo o vapor, mas é um pequeno projeto que me manterá com a cabeça onde ela deve estar: no que importa.
Outra atitude é manter-me o mais longe possível dos colegas de profissão. Contraditório? Absurdo? Errado? Sinceramente, não sei. Mas sei que no tempo em que estive de "férias" nenhum, absolutamente nenhum deles mandou um e-mail, telefonou, enviou sinais de fumaça. Nenhum deles manifestou algum tipo de amizade ou companheirismo. Eu não estava mal, não estava desesperada, havia recebido 3 propostas de emprego e estava curtindo um momento muito importante da minha vida.
Mas nenhum deles sabia disso.
No meu primeiro dia no novo emprego, recebi quatro ligações, de quatro colegas de profissão, agora sim "interessados" no que eu estou fazendo.
Acho isso extremamente desgastante. Agir de forma profissional, que nada mais é que fazer de conta que não existem relações humanas envolvidas, fazendo com que não hajam atritos, que nada mais é do que seu concorrente tentando descobrir o que você está fazendo e você tentando descobrir o que ele está fazendo.
Outra atitude que tomei foi transformar esse blog em privado. Detesto a idéia dessa censura mas detesto ainda mais pensar em gente dissimulada vindo aqui e deixando comentários com iniciais porque não tem coragem de dizer o que pensa.
E no dia seguinte...
Mudei de idéia! Não tem como eu ser filiada ao Enoblogs e deixar meu blog privado. Vai ter que ser ou uma coisa ou outra. Então resolvi criar um outro blog. Esse sim, privado, onde postarei os textos que gostaria de postar aqui. Colocarei um link aqui quando postar por lá, ok?
Mas moderei os comentários, embora não goste dessa idéia.
05 Março 2009
Desviando um Abstêmio - Meu Primeiro Vinho
Snif
Fiquei emocionada com o post do Léo (clique aqui para lê-lo diretamente na fonte). Ele é mais um que foi flechado pelo Baco (o Baco é meu e eu deixo ele ter quantas flechas quiser!).
"Meu problema com a bebida - I
Eu confeço, sou abstêmio.
abs.tê.mio
adj. Que se abstém de bebidas alcoólicas. S. m. Pessoa abstêmia.
Não é nada grave, na verdade. Ainda que eu pareça pouco confiável aos olhos de alguns.
Sim… já encontrei pessoas que me olhavam desconfiados quando eu dizia que não bebo cerveja ou que nunca havia “tomado um porre”…
As vezes me perguntam se é por motivo religioso ou médico…
¬¬
Na verdade minha distância do alcool é mais uma questão biológica do que opção.
Meu organismo simplesmente olha pra esse tal de alcool e diz, “Unh… não, valeu. Tem uma coca aí?”
Apesar disso, já tive meus momentos botequeiros.
Sim, e porque não?
Aliás, como bom botequeiro, nunca curtí sair fim de semana. Um ótimo dia pra botecar é quarta e quinta. hehehe
Bebendo coca-cola, sempre.
O que me faz lembrar outra coisa, por que diabos, aqueles que tomam cerveja se sentem no direito de reclamar e esperniar se não tiver a marca favorita deles, mas eu não tenho quando não tem a minha marca favorita de refrigerante?
Não, refrigerante não é “tudo igual”.
Mas isso fica pra outra hora.
Toda essa introdução era só p falar sobre a degustação de vinho que eu participei recentemente.
“Mas você não era abstêmio, caramba!?” Você exclama. E eu respondo, sim, eu sou.
;-)
É verdade que eu costumo experimentar bebidas. No fim das contas, acabo sendo inclinado a gostar mais de destilados.
Não sei se pela ojeriza (bem mineires essa) à cerveja, mas fermentados nunca me agradaram muito, nem mesmo os vinhos. O que eu sempre quis contornar. Afinal, em algumas situações sociais, apreciar um bom vinho é essencial.
E eu sempre esperei que a questão fosse esta, nunca agradei de vinho pois nunca experimentei um vinho bom de verdade.
Pois então, com minha amiga Sommelière, Gil me oferecendo uma degustação finíssima, não teve como declinar o convite.
Eis que o abstêmio foi bebericar um vinho “de autor”.
(tô aprendendo, Gil)
^^
Não, não foi desperdício de vinho, ora pois.
Como descrevo? Foi algo realmente novo.
É como experimentar algo pela primeira vez, como se nunca na vida eu tivesse sequer levado vinho à boca.
Sensações diferentes passaram por minha lingua e garganta, o famoso retorno de odor de alcool pelo nariz (o que mais me desagrada), praticamente inexistente.
Cenas de uma lareira, um tapete felpudo, um fundue me passam pela cabeça.
Pude entender, enfim, como uma simples taça pode mudar o aroma e paladar do que é consumido nela.
Orientados pela Sommelière, os convidados (nós) apreciamos cuidadosamente o aroma, a imagem e o paladar do vinho. Pudemos descrever sem medo ou culpa, todas as sensações que sentimos, cada lembrança, cada percepção que sentíamos ao experimentar o vinho. Percepões degustativas de similaridade de aromas e paladar foram abertamente desfiadas.
De fato, existe uma ponte imensa entre o beber e o degustar.
A porta para um mundo desconhecido foi aberta…
É claro que não terei tantas outras oportunidades para experimentar vinhos desta categoria, até lá, provavelmente ficarei na minha estimada coca-cola com limão.
Mas a vontade de beber um vinho em um bistrô francês numa manhã preguiçosa de domingo ficou… ah, como ficou.
Sim, posso me acostumar com isso."
Ele também me avisou sobre o Towel Day, que acontecerá no dia 25 de março.
Então, caro leitor, esteja de prontidão com sua toalha, seu Sensormático Subeta e um andróide paranóide. Depois vá procurar pelos POPs do mundo do vinho. Você verá coisas inacreditáveis como o tamanho do pin... do Parker!
11 Fevereiro 2009
Feliz Aniversário Para Mim! - Feliz Aniversário Para Mim!
Dia 09 de fevereiro completei 35 anos, ou 35 primaveras, ou 3.5 ou... bem, vocês entenderam.
Fiquei admirada ao ver que no orkut grande parte dos meus amigos fazem aniversário na mesma época. Disso posso tirar várias conclusões.
A primeira é que a maioria dos meus amigos foi concebida por volta do mês de maio, seja lá o que isso queira dizer.
Li certa vez que para cada opinião ou característica sua existem mais 100 pessoas iguais (ou quase). "Nonsensismo" por "nonsensismo", posso "deduzir" que existam mais aquarianos no mundo que qualquer outro signo.
Segundo o horóscopo nós, aquarianos, somos independentes, criativos, prafrentex, pensamos como ninguém no futuro, somos muito amigos e mais um montão de características excelentes. Sem falar da Era de Aquário, tão comentada nos anos 80 e esperada para o ano de 2.600. É quando haverá paz e amor. Isso me lembra o livro A Senhora de Avalon. Nele é esperado um salvador que irá nascer reencarnado e salvar a todos. O livro termina com uma redundância: eles continuam esperando. Isso também me relembra algumas das inúmeras razões para eu ser atéia.
Se você está se perguntando o que é que isso tudo tem a ver com vinho, vou responder adiantadamente: Nada. Apenas estou fazendo uma volta enooooorme antes de chegar na parte em que falo sobre o vinho que abri no dia do meu aniversário.
Agora que tenho 35 anos posso me considerar uma mulher adulta, muito embora agora eu queira mais é ser criança novamente. Gozado isso, pois quando eu era criança minhas brincadeiras eram sempre sobre ser adulta.
Ter 35 anos de idade tem muitas vantagens. Não lembro de nenhuma nesse momento, mas assim que lembrar eu digo.
Um amigo, leitor do blog (ele fica aqui escondidinho, lê o blog só no banheiro com a luz apagada e depois que todo mundo vai dormir. Por isso não vou falar seu nome, não se preocupe, Luís Felipe) perguntou como eu ia passar o dia do meu aniversário. Eu respondi que da melhor maneira: com meus amigos, meu namorado, e vinho.
Perceberam como finalmente cheguei à parte que fala de vinho? A volta nem foi tãaao grande assim.
Meus amigos que amo tanto conseguiram me fazer uma dupla surpresa. Vieram comemorar meu aniversário que eu nem lembrava mais que aconteceria, e o fizeram um dia antes da data. Cá estou eu tomando chimarrão com um acessório super bacana que ganhei do Léo. Parece um vibrador, mas é uma garrafa térmica super mega útil. Agora posso dosar a cafeína com uma caneca com um "cafeinômetro" que a Déa e Gladin me deram, e tenho um banheiro cheiroso com creme de geléia de guaraná e picolés-sabonetes de limão, maracujá e morango, que Anso, Papoula e Keké me deram. Acho que isso deveria estar na geladeira...
Também ganhei um dicionário inglês-português e um livro com várias lendas nórdicas de meu namorado. Nem sabia que existiam essas lendas antes de Beowulf, quando a gostosa da Angelina Jolie Digitalizada sai da água com o que imagino seja um tapa-sexo digital ou uma depilação muito bem feita.
É muito bom ter pessoas que a gente ama por perto quando a pele vai ficando flácida.
Tudo bem, agora chegamos à parte em que realmente falo do vinho.
Abri o Minimus Anima 2007. Claro que já falei aqui sobre ele, mas é que achei que ele merecia ser comentado novamente, até mesmo porque essa garrafa foi ainda melhor que a primeira.
Mas faço algumas ressalvas. Todo mundo já sabe que odeio notinhas (sim, esse "inha" é no sentido pejorativo) de degustação, sejam elas feitas numericamente, com estrelinhas, bicchierizinhos ou qualquer coisa quantificável. Não gosto sequer de falar sobre os aromas do vinho, pois penso que cada pessoa tem uma memória olfativa individual(e não adianta vir com esse papo da linguagem do vinho ser bem específica. A linguagem pode ser. Os sentidos, não), cheia de aromas diferentes umas das outras, e formas de expressar, e sensibilidade diferentes. Daí a graça da coisa.
Então, como acho esse vinho muito especial, vou descrevê-lo. Mas que isso não sirva como guia para ninguém. Se o descrevo é apenas para tentar levá-los à viagem que eu fiz ao degustá-lo, não para influenciá-los. Por isso uso a palavra "senti" e não "tem".
Abri a garrafa a 23 graus. O primeiro aroma que senti (viu só?) foi de uma certa umidade fria. Em seguida, girando o caldo na taça, álcool, e uma segunda camada de frutas vermelhas bem maduras. Imagine uma fruteira com frutas vermelhas depois de uns dias no calor e com a porta da cozinha fechada. Foi isso.
Mais uma girada. Senti alguma coisa herbácea, verde (papagaio não, Léo!). Meu namorado disse ter sentido um cheiro que lembrou floresta depois da chuva. Então mais camadas: chocolate, resina.
Não eram apenas aromas complexos, eram... lindos!
Claro que a essa temperatura na boca o vinho ficou um tanto desequilibrado. Resfriei-o a 18 graus. Muitos dos aromas ficaram brincando de esconde-esconde, mas o sabor, ah, o sabor! Equilibradíssimo, longo, persistente, um corpo que faria muito vinho sentir que precisa de uma academia.
Não senti nenhum gás ainda que leve e adorei acompanhar a aeração do vinho na taça, não no decanter. Isso sim eu aconselho. Façam o mesmo em relação à temperatura e aeração.
Com certo custo deixei meia garrafa para ser bebida no dia seguinte. Acho que isso é uma prova de fogo para qualquer vinho. Não que esse "teste" impeça um vinho de ser memorável. É mais como um daqueles inúmeros testes de QI. Não ter passado no Teste de Eistein não significa que você seja um retardado.
Um vinho que continue bom, ou que melhore no dia seguinte é um vinho pelo qual vou ter ainda mais admiração e respeito.
Voltei a provar o Minimus no começo da tarde do dia seguinte. O sabor continuava ótimo e os aromas foram aparecendo, embora com menor intensidade, à medida em que a temperatura subia.
Mais uma vez à noite, já por volta das 23:00, quase depois de um dia inteiro aberto, o vinho mostrou-se ainda melhor em sabor que ao ser aberto. O que não consigo agora é traduzir esse "ainda melhor" porque para mim ele já estava perfeito.
Posso ainda não ter lembrado das vantegens de ter 35 anos, mas com certeza o que desejava para esse aniversário saiu ainda melhor que a encomenda.
28 Janeiro 2009
"Anota" de Degustação - Provando Panda e Pingüin
Recebi do Marco Danielle algumas garrafas de vinho como amostras.
Não. Vou começar antes disso:
Há quase dois anos recebi através do e-mail de trabalho um anúncio de compras em primeur de vinhos. Até aí nada demais. Curiosa, cliquei no link enviado e vi pela primeira vez o Projeto Tormentas.
A primeira impressão foi de que se tratava de puro marketing. Mas lendo com atenção e pesquisando sobre o assunto, percebi que não era apenas isso.
Comprei o Livro de Tormentas, conversei longamente com Danielle via Skipe e descobri ser ele uma pessoa realmente apaixonada pelo vinho. Além de apaixonado é também muito corajoso. Anunciar que vai produzir o melhor vinho do Brasil num país que venera o estrangeiro é como colocar um alvo em si mesmo.
Vieram as inevitáveis flechas por todos os lados. Os pseudoconhecedores criticaram, brigaram, indignaram-se e pouco beberam seu vinho.
Outros o elogiaram. Muito.
Participávamos do mesmo fórum de enogastronomia. Num episódio lamentável de ofensas dirigidas à ele, Danielle abandonou o fórum. Há muitos meses sem conversar, retomamos o contato por causa de um falso e-mail que lhe foi mandado em meu nome.
Nem sempre os vírus são bandidos...
Voltando a conversar, Marco prometeu-me amostras dos vinhos, e cumpriu a promessa. Essas chegaram há alguns dias e eu contei cada minuto até a degustação.
Deixei as garrafas descansarem tranquilamente da viagem e então reuni algumas pessoas que considero sinceras, sensíveis e livres de tendências para degustá-las comigo.
Embora tenha convidado vários profissionais do vinho, apenas um deles compareceu, mas foi o suficiente.
Os outros convidados foram uma amiga que adora vinho, outra que só havia bebido até então vinhos de garrafão, um amigo que é um dos 3 leitores desse blog (né Léo?) e meu namorado, que tem um olfato invejável mas é incrivelmente indisciplinado.
A idéia foi reunir um grupo muito diverso e com conhecimento em vários níveis, nenhum conhecimento, interesse ou apenas curiosidade. Arriscado? Amador? Pura loucura?
Não. Apenas divertido.
Preparei o espírito dos "não iniciados" para que eles deixassem de associar vinho à chatisse de enointelectuais e a prova ficou marcada.
Fiquei quase paranóica pensando em como fazer com que eles não se intimidassem e falassem o que sentiam e o que acharam dos vinhos.
Optei por folhas em branco para que meus convidados apenas anotassem tudo o que sentiam e cobri as duas amostras. Uma delas com a figura de um urso Panda (Prelúdio 2007) e a outra com a figura de um Pingüim (Minimus Anima 2007). Não dei nenhuma informação a respeito das garrafas.
Abri e aerei os vinhos conforme Danielle havia recomendado e me transformei na própria figura da expectativa. Esperei longamente por aqueles vinhos e mil perguntas invadiram minha mente.
Seriam os vinhos o que eu estava esperando? Porque eu esperava alguma coisa do vinho se eu, como profissional deveria simplesmente fazer aquele ar blasé e ignorar até um boto cor-de-rosa voador? O que eu diria ao Danielle se não gostasse dos vinhos? Será que eu os saberia apreciar devidamente?
Andei de um lado para o outro até que meus convidados chegaram e depois de perceber que a única pessoa tensa ali era eu mesma, relaxei.
Meus amigos sentaram, olharam, cheiraram e analisaram cada vinho. Anotaram tudo e foi lindo ver como eles foram sinceros e descontraídos. Nenhuma pressão ou sugestão do que cada vinho "deveria" ou não ter. Algumas perguntas, algumas explicações e depois apenas apreciação.
Todos descreveram os vinhos conforme o que conseguiram sentir. Fraco, forte, alcóolico ou não, macio, sensação de doçura na boca, não queima quando engole, aromas de uvas amassadas no chão e semi fermentadas, sabor persistente, tânico porém gostoso, acidez boa, foram alguns termos que eles usaram.
No final, a pergunta definitiva: "E então, gostaram?". E a resposta unânime: "SIM, MUITO!".
O Minimus Anima é um vinho para pessoas experientes. Foi a primeira vez que vi leigos gostarem de um vinho assim. O sommelier admitiu que jamais reconheceria os vinhos como sendo brasileiros.
E quanto à mim, que posso falar sobre os vinhos, afinal?
Provei-os assim que abri a garrafa e depois de uma hora. O Prelúdio estava muito bom ao ser aberto e ficou ótimo 1 hora depois. Manteve-se ótimo.
O Minimus Anima estava ótimo ao ser aberto, 1 hora mais tarde estava excelente e 2 horas depois estava totalmente PERFEITO. Não vou dar notinhas sórdidas e o que estou tentando transmitir é impossível. O vinho me levou às nuvens. Incrivelmente espantoso. E é isso.
Transcrevo na íntegra os recados pós-degustação que recebi no orkut:
Léo:
Putz, felomenal a degustação.
Me sentí "o" chique.
hehehehe
Mas sério, é a única maneira dum abstêmio beber vinho.
hahahaha
Me impressionou MUITO aqueles.
aguardo a próxima.
^^
Curtí o Raimundo tb [o sommelier]. Muito comédia.
E ele disfarça, tem cara de gente séria e chata.
XD
Keziah:
Nossa, foi muito bom.
Eu adorei, e não achei essa tal parte chata [a preveni sobre talvez ser chata a parte da avaliação].
Na verdade eu adorei, achei fantástico como uma leiga, como eu,
pode agora apreciar um bom vinho... hehehehehe
A Paloma também adorou, ela só tinha "bebido" aqueles vinhos "melhores do Brasil" [leia-se vinho ruim].
PS: Quero ir na próxima degustação... hahahahaha
Comentários assim valem mais que os malditos pontos do Robert Parker.
