17 março 2013

Minha colaboração para o Angry Sommelier

Hoje estou fazendo uma postagem ao mesmo tempo que o Angry Sommelier. O texto foi escrito, como ele disse, a 20 dedos. Na verdade é puro exagero. Eu uso apenas cinco pra digitar.

Para quem ainda não conhece o blog, aconselho muito a dar uma olhada. Vale umas boas risadas:
http://angrysommelier.wordpress.com



A Incansável Busca Pelo Vinho Coca Cola
Não é de hoje que se tenta padronizar. Comportamentos, opiniões, roupas, comida, ensino, cabelos e mais uma imensa lista de coisas. Se existe um padrão, existe também aquilo que é fora do padrão e portanto facilmente condenável, excluído e rejeitado. Na maioria das vezes sem culpas ou pudores. Que o digam as vítimas da presidência da Comissão de Direitos Humanos do nosso Bananil.
Nessa lista, procure pela letra “V” e perceba que o vinho também está lá. A contragosto, é claro.
O vinho é multifacetado em sua mais profunda natureza. O terroir está para o vinho como o DNA está para a formação das diversas etnias. Mexer no DNA para transformar todos em homens-adultos-heteros-brancos-de-cabelo-liso é um crime. Não vou exagerar dizendo que fazer o mesmo com o vinho é um crime idêntico, mas é também um crime. As tentativas de criar um vinho-padrão descaracterizam, desmembram, desdizem e corrompem essa bebida que só existe para ser múltipla.
Pena que tem tanta gente que faz isso, especialmente os mais influentes e poderosos. Porque será?
Michel Rolland e Robert Parker talvez sejam os maiores representantes do desmilagre que anda transformando vinho em coca cola enquanto Jesus se revira no céu.
No mundo do vinho eles são como Marco Feliciano, para quem existe apenas uma verdade, baseada em princípios no mínimo duvidosos. Estão os três no lugar errado, evidentemente.  São aberrações com enorme poder de influência sob aqueles que, ou compartilham dos mesmos princípios, ou são ovelhas dóceis prontas para o abate.
Me preocupo mais com as ovelhas que com os seus pastores. É somente através e por causa delas que a multiplicidade rareia. Por isso me assustei mais uma vez com a iniciativa de alguns sommeliers-ovelhas que criaram mais um de tantos e tantos selos para o vinho. Um selo assim depende de algum tipo de padronização. Isso me soa tão bizarro quanto um selo de qualidade para as pessoas e sempre me deixa espantado.
Ora, senhores, pelo amor de Baco, deixem o vinho e as pessoas serem quem são em paz!

17 fevereiro 2013

Chavões


Alguns julgamentos que fiz me causaram enormes arrependimentos.
A cada dia me policio para não ser preconceituosa.

Policio minha fala, mas principalmente meus atos e pensamentos. Os atos, porque são o efeito que causo, os pensamentos porque são a fonte dos atos e as palavras, porque carregam um discurso que fala por si.
Porque o policiamento? Porque sou fruto de uma sociedade preconceituosa, porque cresci ouvindo coisas que não devia (vê a importância das palavras?) e vendo o que não devia.

 Os preconceitos crescem conosco, tornam-se "normais" no nosso círculo social.
Como quase todo sulista, cresci ouvindo coisas erradas sobre os negros. Como qualquer cristão, cresci ouvindo um monte de coisas erradas sobre moral, leis e costumes, certo e errado. Como qualquer mulher, cresci ouvindo coisas erradas sobre o que é ser mulher.

Não é assim que o preconceito se forma, se mantém, passando de geração em geração, sem questionamentos, críticas e julgamentos?

Não sei se foi genética, a enorme influência do meu pai-pensador, minha família que me deixava pensar ou tudo isso, mas tive a imensa sorte de poder me questionar.

Quando criança frequentei a missa, fiz primeira comunhão e crisma, participei de grupo cristão de jovens (fui até eleita presidenta de um!). Ironicamente foi a igreja que mais me influenciou a tornar-me ateia. Conhecer a bíblia (que li logo cedo) é conhecer o preconceito. Na minha cabeça infantil e consciência felizmente ainda não totalmente formada, perguntava-me porque mulheres não podem isso ou aquilo? Ora, eu era uma mulher e queria poder fazer todos os issos e aquilos! Porque ser gay era errado? Porque, porque, porque? Quanto mais lia o tal livro sagrado, quanto mais conhecia as leis divinas, mais descrente me tornava. Que deus é esse que cheio de amor, aceita, comete e cultiva o ódio?

A fase de transição entre teísmo e ateísmo foi duríssima. Mas passou. E o ateísmo trouxe junto consigo a libertação dos dogmas. E o descompromisso com as regras de deus. Em consequência, trouxe-me a noção de igualdade.
Aprendi muita coisa, é claro. Mas as vezes escorrego, escorrego feio. Aí entram os arrependimentos.

Já disse de boca cheia “claro que não sou preconceituosa!”.
Quanta empáfia! Hoje eu digo do alto dos meus inúmeros erros “claro que sou preconceituosa! Me vigio exatamente para ser cada vez menos!”.

Já medi pessoas pela roupa.
Não faz muito tempo me flagrei pensando, e, pior ainda, falando sobre a vulgaridade no jeito de vestir de algumas mulheres. Me envergonho profundamente disso.

Já cheguei a cogitar ser verdade aquilo que eu ouvia sobre nordestinos quando ainda estava no sul.
 As experiências desagradáveis que tive por aqui no Nordeste não justificam meus pensamentos.

Mas talvez o pior pensamento, o mais infeliz que já tive e o que me causa mais vergonha, tenha sido aquele que veio durante um banho. Sim, os bons e maus pensamentos me surgem nos momentos mais inoportunos.
Eu amaldiçoei o feminismo.
Até cheguei a pensar “malditas mulheres que queimaram sutiãs!”. Não foi um pensamento original, eu sei. Irrefletidamente, neguei tudo o que o feminismo trouxe de bom, inclusive o direito de estar ali tomando banho antes de ir para a faculdade. Poder estudar foi o primeiro grande direito que o feminismo me deu. Maior que ele, somente o direito de pensar, de questionar, como eu faço desde criança sem nunca ter sido censurada por isso .
Porque insultei minhas antepassadas que lutaram por mim?
Porque eu estava cansada. Porque tudo o que eu queria era alguém pra cuidar de mim. Um homem que me provesse de tudo o que eu fosse precisar. Porque estava sozinha, porque jamais havia cedido desde o dia em que li na bíblia que mulher precisa calar e submeter-se. Porque estou em uma cidade absurdamente machista, e machismo é produto que se consome com facilidade.
Porque estava SOFRENDO.

Não lembro de ter em algum momento feito ou falado qualquer coisa em relação a negros. Mas logicamente fiz! E sabe o que aconteceu em seguida? Enfiei isso no fundo do meu porão do inconsciente. Porque é isso que a gente faz com o preconceito.
Esse relato está aqui para que eu não cometa o mesmo erro.
Não quero esquecer dos meus preconceitos. Quero trazê-los à luz, quero desmontá-los para que eles percam o efeito.



Hoje percebo que a gente descobre que superou um preconceito quando não faz a mínima, a mais remota diferença para a gente uma pessoa ser bi, hetero, trans, negro, gay, ter ou não ter perna, ser gordo, mudo, feio, magro, velho ou infinitamente diferente da gente. Quando a gente pensa “EU NÃO SOU A MEDIDA DAS COISAS”.

05 fevereiro 2013

Trinta e Nove


Prestes a completar 39 anos, avalio minha condição de não mais pertencer à juventude. Aliás, para muitos, sequer pertenço ao mundo adulto. Alguns separam o tempo de vida em infância, adolescência, juventude, idade adulta e velhice, que começa nos 30.

Já tive minhas pirações a respeito de idade, é claro. Como qualquer produto de uma sociedade que idolatra a juventude, mais a pressão de ser mulher e portanto, "ter" que permanecer jovem.

Essas pirações não duraram muito tempo. Uma grande ajuda para que eu me aceitasse, bem como a minha idade, foi uma conta simples que fiz enquanto estava dentro de um ônibus.
Vivemos uma média de 70 anos. Durante, digamos, 12 anos, somos crianças. Depois passamos 6 anos (pouco menos ou mais) sendo adolescentes. Então seremos jovens durante uns 7 anos e passaremos rapidamente pela idade adulta antes de sermos taxados de velhos, fase que vai dos 30 até a morte.

Bem, se viveremos, do mesmo modo que os gatos, a maior parte da vida sendo velhos, prefiro não ficar enfiando agulhas de botox no meu corpo, lutar contra a gravidade e reclamar que já não sou mais a mesma. Claro que não sou, e acho isso ótimo!

Passei a amar meu corpo depois dos 30, assumi minha total feminilidade, que antes considerava fraqueza, aos 37, comecei a gostar de verdade de sexo e a me preocupar de fato com meu prazer lá pelos 34. Comecei a me sentir mais confiante e segura depois que envelheci. Hoje não sou nem de longe a mesma pessoa que era há 20 anos porque estou muito, muito melhor!

Hoje acho estranho as pessoas falando coisas como "mas é só um velho", como se isso desqualificasse qualquer opinião ou posição. A idade só tem me trazido benefícios. Sério! E o fato de alguém se incomodar com a minha idade diz muito mais sobre a pessoa que se incomoda do que sobre mim. ;-)