Alguns julgamentos que fiz me causaram enormes arrependimentos.
A cada dia me policio para não ser preconceituosa.
Policio minha fala, mas principalmente meus atos e pensamentos. Os atos, porque são o efeito que causo, os pensamentos porque são a fonte dos atos e as palavras, porque carregam um discurso que fala por si.
Porque o policiamento? Porque sou fruto de uma sociedade preconceituosa, porque cresci ouvindo coisas que não devia (vê a importância das palavras?) e vendo o que não devia.
Os preconceitos crescem conosco, tornam-se "normais" no nosso círculo social.
Como quase todo sulista, cresci ouvindo coisas erradas sobre os negros. Como qualquer cristão, cresci ouvindo um monte de coisas erradas sobre moral, leis e costumes, certo e errado. Como qualquer mulher, cresci ouvindo coisas erradas sobre o que é ser mulher.
Não é assim que o preconceito se forma, se mantém, passando de geração em geração, sem questionamentos, críticas e julgamentos?
Não sei se foi genética, a enorme influência do meu pai-pensador, minha família que me deixava pensar ou tudo isso, mas tive a imensa sorte de poder me questionar.
Quando criança frequentei a missa, fiz primeira comunhão e crisma, participei de grupo cristão de jovens (fui até eleita presidenta de um!). Ironicamente foi a igreja que mais me influenciou a tornar-me ateia. Conhecer a bíblia (que li logo cedo) é conhecer o preconceito. Na minha cabeça infantil e consciência felizmente ainda não totalmente formada, perguntava-me porque mulheres não podem isso ou aquilo? Ora, eu era uma mulher e queria poder fazer todos os issos e aquilos! Porque ser gay era errado? Porque, porque, porque? Quanto mais lia o tal livro sagrado, quanto mais conhecia as leis divinas, mais descrente me tornava. Que deus é esse que cheio de amor, aceita, comete e cultiva o ódio?
A fase de transição entre teísmo e ateísmo foi duríssima. Mas passou. E o ateísmo trouxe junto consigo a libertação dos dogmas. E o descompromisso com as regras de deus. Em consequência, trouxe-me a noção de igualdade.
Aprendi muita coisa, é claro. Mas as vezes escorrego, escorrego feio. Aí entram os arrependimentos.
Já disse de boca cheia “claro que não sou preconceituosa!”.
Quanta empáfia! Hoje eu digo do alto dos meus inúmeros erros “claro que sou preconceituosa! Me vigio exatamente para ser cada vez menos!”.
Já medi pessoas pela roupa.
Não faz muito tempo me flagrei pensando, e, pior ainda, falando sobre a vulgaridade no jeito de vestir de algumas mulheres. Me envergonho profundamente disso.
Já cheguei a cogitar ser verdade aquilo que eu ouvia sobre nordestinos quando ainda estava no sul.
As experiências desagradáveis que tive por aqui no Nordeste não justificam meus pensamentos.
Mas talvez o pior pensamento, o mais infeliz que já tive e o que me causa mais vergonha, tenha sido aquele que veio durante um banho. Sim, os bons e maus pensamentos me surgem nos momentos mais inoportunos.
Eu amaldiçoei o feminismo.
Até cheguei a pensar “malditas mulheres que queimaram sutiãs!”. Não foi um pensamento original, eu sei. Irrefletidamente, neguei tudo o que o feminismo trouxe de bom, inclusive o direito de estar ali tomando banho antes de ir para a faculdade. Poder estudar foi o primeiro grande direito que o feminismo me deu. Maior que ele, somente o direito de pensar, de questionar, como eu faço desde criança sem nunca ter sido censurada por isso .
Porque insultei minhas antepassadas que lutaram por mim?
Porque eu estava cansada. Porque tudo o que eu queria era alguém pra cuidar de mim. Um homem que me provesse de tudo o que eu fosse precisar. Porque estava sozinha, porque jamais havia cedido desde o dia em que li na bíblia que mulher precisa calar e submeter-se. Porque estou em uma cidade absurdamente machista, e machismo é produto que se consome com facilidade.
Porque estava SOFRENDO.
Não lembro de ter em algum momento feito ou falado qualquer coisa em relação a negros. Mas logicamente fiz! E sabe o que aconteceu em seguida? Enfiei isso no fundo do meu porão do inconsciente. Porque é isso que a gente faz com o preconceito.
Esse relato está aqui para que eu não cometa o mesmo erro.
Não quero esquecer dos meus preconceitos. Quero trazê-los à luz, quero desmontá-los para que eles percam o efeito.
Hoje percebo que a gente descobre que superou um preconceito quando não faz a mínima, a mais remota diferença para a gente uma pessoa ser bi, hetero, trans, negro, gay, ter ou não ter perna, ser gordo, mudo, feio, magro, velho ou infinitamente diferente da gente. Quando a gente pensa “EU NÃO SOU A MEDIDA DAS COISAS”.