Lembra-se de quando eu tive o primeiro de vocês? A capa era cor de rosa, tinha cadeado e cheirava muito bem. Escrevi a minha adolescência nele e depois de adulta atirei-o em um rio, página por página. Era o ritual que me transformaria em mulher.
O diário transformou-se em notas de world 2003 e a mulher está envelhecendo.
Tenho hoje o que chamam (curiosamente) de meia idade. Como posso saber se estou na meia idade se não sei quando vou morrer? Possa ser que eu morra hoje, com 36 anos, então a minha meia idade foi aos 18 e eu nem sabia, deveria ter aproveitado mais.
É incrivelmente estranho envelhecer porque minha cabeça não envelheceu e pela primeira vez estou curtindo o meu corpo. Estou no auge da minha sexualidade e dispenso frescuras e não-me-toques. Sou madura o suficiente para não repetir certas bobagens e desdenhar os mais jovens e suas preocupações infundadas.
Por outro lado, estou vivida e escaldada o suficiente para dispensar emoções que eu deveria ainda estar vivendo. Talvez minha meia idade tenha sido aos 18 anos e eu morra amanhã.
Tenho medo de amar, de entregar-me, de parecer ridícula, de comportar-me como uma adolescente de meia idade, de vestir-me de forma inadequada, de ficar doente, de ter câncer, de acabar o tesão, de morrer de repente em casa, sozinha, e só encontrarem meu corpo dias depois ao lado de uma gata morta de fome.
Com a minha meia idade (que pode ter sido aos 18 e eu nem aproveitei nada) levo também alguns pesos que eu tento jogar fora. Mas parece haver um cordão, tipo aqueles de prancha de surf, e quando eu os atiro fora eles continuam sendo arrastados por mim.
Então é isso o envelhecimento? É triste, é triste. Não me importo em demasia com as rugas, com o corpo ficando mais lento. Acho engraçada a pele mudando, acho engraçado eu gostar muito do meu corpo como ele é hoje. Talvez seja uma despedida. Quando eu era jovem vivia cheia de complexos com o meu corpo. Magra demais, gorda demais. Não conseguia aceitar-me. Agora eu sei que em poucos anos nunca mais verei meu corpo como ele é hoje.
O que me importa, o que me dói é meu coração fechado. É muito mais difícil lidar com o coração fechado que com os olhos necessitados de óculos. A armadilha do envelhecimento não é o corpo, é o coração.
Posso fazer planos novamente? Vou ficar desarmada alguns minutos por dia, enquanto estiver com você, vou ser adolescente novamente, vou rir e falar o que tenho vontade. Sei que você também sente falta dos tempos quando ambos tínhamos corações abertos.
Que mal há em abrir o coração alguns minutos por dia?
26 dezembro 2010
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