Minha paixão pelo rock’n roll nasceu lá na adolescência, da vontade de quebrar regras e fazer o que “moça de família” não fazia. Eram os anos 80, quando jovens vestiam (literalmente) a camisa da banda que melhor representava seus próprios ideais.
Havia os rebeldes românticos Guns n’ Roses, os sonhadores Legião Urbana, a plebe seguidora do Plebe Rude, os malucos beleza que só podiam ser Raul Seixas e tantos outros. Houve também o grupo dos radicais, do qual eu mesma, única entre os meninos, fazia parte. Os radicais ouviam o que havia de mais pesado: AC/DC.
Obviamente minha visão da juventude oitentista é parcial e totalmente subjetiva, mas arrisco dizer (ainda que soe como soava a conversa dos mais velhos à minha época de adolescência) que a minha geração foi, se não a última, uma das últimas gerações de jovens com ideais nobres de mudanças na sociedade. E a música da época refletia esses ideais.
Em novembro passado o AC/DC fez um show no Brasil e resolvi que seria mochileira por um dia, ainda que com 20 anos de atraso. Entrei na quilométrica fila de ingressos logo cedo, comprei passagem de excursão, reservei hotel de terceira categoria e esperei ansiosamente pelo dia da realização de um dos tantos sonhos de adolescência.
Nesse intervalo fiquei imaginando que tipo de vinho iria beber no show. Dentro do mesmo espírito de quebrar regras e fazer o que “sommelière de estirpe” não faz, refleti sobre o assunto e acabei não levando vinho algum.
Meses se passaram e hoje pensei em muitos vinhos para celebrar o espírito de rebeldia da minha geração e sua boa música.
Pensei em Jonathan Nossiter, Marco Danielle, Luís Henrique Zanini e todos os demais radicais que não aceitam o caminho da “coca-colalização” que o vinho está tomando. Eles representam a camisa que visto hoje, como aquelas que vesti no passado.
De “Ars Ardor Honor” (Arte, paixão, honra), fidelidade, amor e rebeldia são feitos os vinhos nos quais pensei.
O mundo mudou, eu mudei, o radical vocalista do Plebe Rude hoje trabalha no Banco Central e talvez meus ideais assim como os ideais das pessoas que tanto admiro atualmente também mudem. Talvez todos nos conformemos em finalmente ceder os ouvidos ao axé e o paladar aos ditadores. Mas ainda não, ainda não.