Recebi do Marco Danielle algumas garrafas de vinho como amostras. Não. Vou começar antes disso:
Há quase dois anos recebi através do e-mail de trabalho um anúncio de compras em primeur de vinhos. Até aí nada demais. Curiosa, cliquei no link enviado e vi pela primeira vez o Projeto Tormentas.
A primeira impressão foi de que se tratava de puro marketing. Mas lendo com atenção e pesquisando sobre o assunto, percebi que não era apenas isso.
Comprei o Livro de Tormentas, conversei longamente com Danielle via Skipe e descobri ser ele uma pessoa realmente apaixonada pelo vinho. Além de apaixonado é também muito corajoso. Anunciar que vai produzir o melhor vinho do Brasil num país que venera o estrangeiro é como colocar um alvo em si mesmo.
Vieram as inevitáveis flechas por todos os lados. Os pseudoconhecedores criticaram, brigaram, indignaram-se e pouco beberam seu vinho.
Outros o elogiaram. Muito.
Participávamos do mesmo fórum de enogastronomia. Num episódio lamentável de ofensas dirigidas à ele, Danielle abandonou o fórum. Há muitos meses sem conversar, retomamos o contato por causa de um falso e-mail que lhe foi mandado em meu nome.
Nem sempre os vírus são bandidos...
Voltando a conversar, Marco prometeu-me amostras dos vinhos, e cumpriu a promessa. Essas chegaram há alguns dias e eu contei cada minuto até a degustação.
Deixei as garrafas descansarem tranquilamente da viagem e então reuni algumas pessoas que considero sinceras, sensíveis e livres de tendências para degustá-las comigo.
Embora tenha convidado vários profissionais do vinho, apenas um deles compareceu, mas foi o suficiente.
Os outros convidados foram uma amiga que adora vinho, outra que só havia bebido até então vinhos de garrafão, um amigo que é um dos 3 leitores desse blog (né Léo?) e meu namorado, que tem um olfato invejável mas é incrivelmente indisciplinado.
A idéia foi reunir um grupo muito diverso e com conhecimento em vários níveis, nenhum conhecimento, interesse ou apenas curiosidade. Arriscado? Amador? Pura loucura?
Não. Apenas divertido.
Preparei o espírito dos "não iniciados" para que eles deixassem de associar vinho à chatisse de enointelectuais e a prova ficou marcada.
Fiquei quase paranóica pensando em como fazer com que eles não se intimidassem e falassem o que sentiam e o que acharam dos vinhos.
Optei por folhas em branco para que meus convidados apenas anotassem tudo o que sentiam e cobri as duas amostras. Uma delas com a figura de um urso Panda (Prelúdio 2007) e a outra com a figura de um Pingüim (Minimus Anima 2007). Não dei nenhuma informação a respeito das garrafas.
Abri e aerei os vinhos conforme Danielle havia recomendado e me transformei na própria figura da expectativa. Esperei longamente por aqueles vinhos e mil perguntas invadiram minha mente.
Seriam os vinhos o que eu estava esperando? Porque eu esperava alguma coisa do vinho se eu, como profissional deveria simplesmente fazer aquele ar blasé e ignorar até um boto cor-de-rosa voador? O que eu diria ao Danielle se não gostasse dos vinhos? Será que eu os saberia apreciar devidamente?
Andei de um lado para o outro até que meus convidados chegaram e depois de perceber que a única pessoa tensa ali era eu mesma, relaxei.
Meus amigos sentaram, olharam, cheiraram e analisaram cada vinho. Anotaram tudo e foi lindo ver como eles foram sinceros e descontraídos. Nenhuma pressão ou sugestão do que cada vinho "deveria" ou não ter. Algumas perguntas, algumas explicações e depois apenas apreciação.
Todos descreveram os vinhos conforme o que conseguiram sentir. Fraco, forte, alcóolico ou não, macio, sensação de doçura na boca, não queima quando engole, aromas de uvas amassadas no chão e semi fermentadas, sabor persistente, tânico porém gostoso, acidez boa, foram alguns termos que eles usaram.
No final, a pergunta definitiva: "E então, gostaram?". E a resposta unânime: "SIM, MUITO!".
O Minimus Anima é um vinho para pessoas experientes. Foi a primeira vez que vi leigos gostarem de um vinho assim. O sommelier admitiu que jamais reconheceria os vinhos como sendo brasileiros.
E quanto à mim, que posso falar sobre os vinhos, afinal?
Provei-os assim que abri a garrafa e depois de uma hora. O Prelúdio estava muito bom ao ser aberto e ficou ótimo 1 hora depois. Manteve-se ótimo.
O Minimus Anima estava ótimo ao ser aberto, 1 hora mais tarde estava excelente e 2 horas depois estava totalmente PERFEITO. Não vou dar notinhas sórdidas e o que estou tentando transmitir é impossível. O vinho me levou às nuvens. Incrivelmente espantoso. E é isso.
Transcrevo na íntegra os recados pós-degustação que recebi no orkut:
Léo:
Putz, felomenal a degustação.
Me sentí "o" chique.
hehehehe
Mas sério, é a única maneira dum abstêmio beber vinho.
hahahaha
Me impressionou MUITO aqueles.
aguardo a próxima.
^^
Curtí o Raimundo tb [o sommelier]. Muito comédia.
E ele disfarça, tem cara de gente séria e chata.
XD
Keziah:
Nossa, foi muito bom.
Eu adorei, e não achei essa tal parte chata [a preveni sobre talvez ser chata a parte da avaliação].
Na verdade eu adorei, achei fantástico como uma leiga, como eu,
pode agora apreciar um bom vinho... hehehehehe
A Paloma também adorou, ela só tinha "bebido" aqueles vinhos "melhores do Brasil" [leia-se vinho ruim].
PS: Quero ir na próxima degustação... hahahahaha
Comentários assim valem mais que os malditos pontos do Robert Parker.

