28 janeiro 2009

"Anota" de Degustação - Provando Panda e Pingüin

Recebi do Marco Danielle algumas garrafas de vinho como amostras.
Não. Vou começar antes disso:
Há quase dois anos recebi através do e-mail de trabalho um anúncio de compras em primeur de vinhos. Até aí nada demais. Curiosa, cliquei no link enviado e vi pela primeira vez o Projeto Tormentas.
A primeira impressão foi de que se tratava de puro marketing. Mas lendo com atenção e pesquisando sobre o assunto, percebi que não era apenas isso.
Comprei o Livro de Tormentas, conversei longamente com Danielle via Skipe e descobri ser ele uma pessoa realmente apaixonada pelo vinho. Além de apaixonado é também muito corajoso. Anunciar que vai produzir o melhor vinho do Brasil num país que venera o estrangeiro é como colocar um alvo em si mesmo.
Vieram as inevitáveis flechas por todos os lados. Os pseudoconhecedores criticaram, brigaram, indignaram-se e pouco beberam seu vinho.
Outros o elogiaram. Muito.
Participávamos do mesmo fórum de enogastronomia. Num episódio lamentável de ofensas dirigidas à ele, Danielle abandonou o fórum. Há muitos meses sem conversar, retomamos o contato por causa de um falso e-mail que lhe foi mandado em meu nome.
Nem sempre os vírus são bandidos...
Voltando a conversar, Marco prometeu-me amostras dos vinhos, e cumpriu a promessa. Essas chegaram há alguns dias e eu contei cada minuto até a degustação.
Deixei as garrafas descansarem tranquilamente da viagem e então reuni algumas pessoas que considero sinceras, sensíveis e livres de tendências para degustá-las comigo.
Embora tenha convidado vários profissionais do vinho, apenas um deles compareceu, mas foi o suficiente.
Os outros convidados foram uma amiga que adora vinho, outra que só havia bebido até então vinhos de garrafão, um amigo que é um dos 3 leitores desse blog (né Léo?) e meu namorado, que tem um olfato invejável mas é incrivelmente indisciplinado.
A idéia foi reunir um grupo muito diverso e com conhecimento em vários níveis, nenhum conhecimento, interesse ou apenas curiosidade. Arriscado? Amador? Pura loucura?
Não. Apenas divertido.
Preparei o espírito dos "não iniciados" para que eles deixassem de associar vinho à chatisse de enointelectuais e a prova ficou marcada.
Fiquei quase paranóica pensando em como fazer com que eles não se intimidassem e falassem o que sentiam e o que acharam dos vinhos.
Optei por folhas em branco para que meus convidados apenas anotassem tudo o que sentiam e cobri as duas amostras. Uma delas com a figura de um urso Panda (Prelúdio 2007) e a outra com a figura de um Pingüim (Minimus Anima 2007). Não dei nenhuma informação a respeito das garrafas.
Abri e aerei os vinhos conforme Danielle havia recomendado e me transformei na própria figura da expectativa. Esperei longamente por aqueles vinhos e mil perguntas invadiram minha mente.
Seriam os vinhos o que eu estava esperando? Porque eu esperava alguma coisa do vinho se eu, como profissional deveria simplesmente fazer aquele ar blasé e ignorar até um boto cor-de-rosa voador? O que eu diria ao Danielle se não gostasse dos vinhos? Será que eu os saberia apreciar devidamente?
Andei de um lado para o outro até que meus convidados chegaram e depois de perceber que a única pessoa tensa ali era eu mesma, relaxei.
Meus amigos sentaram, olharam, cheiraram e analisaram cada vinho. Anotaram tudo e foi lindo ver como eles foram sinceros e descontraídos. Nenhuma pressão ou sugestão do que cada vinho "deveria" ou não ter. Algumas perguntas, algumas explicações e depois apenas apreciação.
Todos descreveram os vinhos conforme o que conseguiram sentir. Fraco, forte, alcóolico ou não, macio, sensação de doçura na boca, não queima quando engole, aromas de uvas amassadas no chão e semi fermentadas, sabor persistente, tânico porém gostoso, acidez boa, foram alguns termos que eles usaram.
No final, a pergunta definitiva: "E então, gostaram?". E a resposta unânime: "SIM, MUITO!".
O Minimus Anima é um vinho para pessoas experientes. Foi a primeira vez que vi leigos gostarem de um vinho assim. O sommelier admitiu que jamais reconheceria os vinhos como sendo brasileiros.
E quanto à mim, que posso falar sobre os vinhos, afinal?
Provei-os assim que abri a garrafa e depois de uma hora. O Prelúdio estava muito bom ao ser aberto e ficou ótimo 1 hora depois. Manteve-se ótimo.
O Minimus Anima estava ótimo ao ser aberto, 1 hora mais tarde estava excelente e 2 horas depois estava totalmente PERFEITO. Não vou dar notinhas sórdidas e o que estou tentando transmitir é impossível. O vinho me levou às nuvens. Incrivelmente espantoso. E é isso.
Transcrevo na íntegra os recados pós-degustação que recebi no orkut:

Léo:
Putz, felomenal a degustação.
Me sentí "o" chique.
hehehehe

Mas sério, é a única maneira dum abstêmio beber vinho.
hahahaha
Me impressionou MUITO aqueles.
aguardo a próxima.
^^
Curtí o Raimundo tb [o sommelier]. Muito comédia.
E ele disfarça, tem cara de gente séria e chata.
XD

Keziah:
Nossa, foi muito bom.
Eu adorei, e não achei essa tal parte chata [a preveni sobre talvez ser chata a parte da avaliação].
Na verdade eu adorei, achei fantástico como uma leiga, como eu,
pode agora apreciar um bom vinho... hehehehehe

A Paloma também adorou, ela só tinha "bebido" aqueles vinhos "melhores do Brasil" [leia-se vinho ruim].

PS: Quero ir na próxima degustação... hahahahaha


Comentários assim valem mais que os malditos pontos do Robert Parker.

16 janeiro 2009

Volta às Origens - Companhia Boa, Vinho Bom

Passei 10 dias na minha (ex) cidade, Palmas, no Paraná. Voltei para lá como outra pessoa. Meus amigos e minha família me receberam como a Gil de antes. Paparicos dos pais, irmãs e cunhados. Recepção calorosa dos amigos há muito não vistos. Admiração de muita gente que, senti, me vêem hoje como uma espécie de heroína, uma pessoa que "venceu na cidade grande".
Meus sobrinhos (sete, acredite) ficaram o tempo todo por perto e vi, orgulhosa, o quanto eles todos estão se desenvolvendo bem.
Não esperava ser tão bem recebida e ser cumprimentada tão carinhosamente por tanta gente que, imaginei, nem lembrasse mais de mim.
Ao contar que sou sommelière em Belo Horizonte, a reação dos meus amigos foi totalmente diferente do que normalmente acontece.
Eles fizeram questão que eu tomasse vinho e me mostraram orgulhosos as garrafas de "vinho de colônia" que possuíam.
Orgulhosa também fiquei eu por ter amigos que abriram seus "tesouros" para mim. Garrafas que consideram especiais e que ficam guardadas para uma ocasião igualmente especial.
Depois de tanto tempo analisando vinhos rigorosamente (sempre encontro mais defeitos que qualidades em um vinho quando os analiso profissionalmente) estava ansiosa para apenas beber e curtir. Foi o que fiz. E os vinhos que bebi me fizeram imensamente feliz, por sua simplicidade, pelas companhias tão amadas, pelo ambiente tão aconchegante.
E essa não é exatamente a primeira e mais bela razão da existência do vinho?