30 dezembro 2008

Estômago - Pergunta Que Não Cala

Finalmente assisti ao filme brasileiro Estômago. Se você ainda não viu e não quer saber o final, não continue lendo!
Trata-se da história de um nordestino chamado Raimundo (é claro!) que vai parar em Curitiba e acaba na prisão.
Mas não apenas isso. Ele aprende a fazer coxinhas em um boteco e conhece uma prostituta por quem se apaixona. E ela por sua vez, apaixona-se por suas coxinhas.
Do boteco ele acaba indo parar em um restaurante italiano, onde aprende a cozinhar de verdade e conhece ingredientes mais finos.
O bacana do filme são as cenas alternadas entre ele já na cadeia e durante sua tragetória até lá. A gente fica se perguntando o tempo todo "Mas o que foi que ele fez pra parar aí?!", mas a resposta vem apenas no final.
O filme foi muito bem produzido, os diálogos são ótimos, os atores, sensacionais.
Iria, a prostituta, não podia ter sido melhor interpretada. A atriz que dá vida à personagem tem um corpo voluptuoso, uma carinha de safada e gulosa. Perfeita!
O ator que vive Raimundo é sensacional. Perfeitamente invisível até certo ponto do filme.
Algumas cenas são impagáveis, como a de Raimundo transando com Iria enquanto ela devora um prato de macarrão, sentindo mais tesão pela massa que pelo parceiro.
Hilária é a cena em que o dono do restaurante mostra à Raimundo sua adega e nela um Sassicaia 1983, presente do pai que, explica o patrão, será aberto apenas quando ele completar 60 anos. Raimundo diz que até lá o "gás todo do Sassicaia já vai ter acabado".
Na penitenciária, Raimundo encanta os "colegas" de cela com seus dotes culinários, e apesar de querer ser chamado de Raimundo Canivete, ganha o apelido de Alecrim, já que usa o tempero em tudo o que prepara. As cenas que envolvem comida na cadeia podem ser vistas apenas por quem tem de fato, estômago. Ou por quem passou ileso por Parfum, A História de um Assassino.
As cenas continuam se alterando entre antes e durante a penitenciária, e vamos conhecendo Raimundo. Inocente (ou burro?), ele pede Iria em casamento, e ela aceita. Aí começamos a entender o que pode ter acontecido.
Na cadeia, Alecrim precisa fazer um almoço para receber Etcétera (o ótimo Paulo Miklos), preso poderoso que será transferido.
Mais uma cena hilária. Raimundo mostra um vinho e diz que vai serví-lo para acompanhar o banquete. Explica que o vinho é italiano e que como passa muito tempo na madeira, fica com cheiros de flores, de frutas, de animais e até de cachorro molhado. Etcétera não quer beber vinho que cheira a cachorro molhado, como era de se esperar, e acaba preferindo Maria Louca (destilado feito de restos de comida fermentada, de teor alcóolico elevadíssimo e gosto tão ruim quanto se pode imaginar).
De volta ao passado, Raimundo já noivo acaba pegando em flagrante Iria com o patrão numa cena que ele não é capaz de aguentar. Ela está beijando-o na boca, coisa que sempre negou ao noivo. O cenário é o restaurante onde ele aprendeu a cozinhar.
Os amantes sobem para o escritório e Raimundo, vingativo, faz uma coisa que me deixou arrepiada: pega a garrafa do Sassicaia, abre e bebe. No bico.
Isso é o requinte da vingança e crueldade!
Depois de tomados uns goles, tira uma faca do suporte e sobe. Outra cena na cadeia e depois de volta ao passado. Ele está grelhando um pedaço de carne. Coloca alecrin em cima e vê-se a garrafa de vinho.
A câmera sobe e vai até o escritório onde jazem os corpos ensanguentados dos amantes. Ela, sobre ele, sem um pedaço da bunda.
A pergunta fundamental é: será que harmonizou??

24 dezembro 2008

Primeira Entrevista - Quase Playmate


Quando me convidaram a dar a entrevista senti-me orgulhosa de mim mesma, claro. A mesma sensação que tive quando meu gerente disse que meu nome deveria constar na carta de vinhos que fiz para o restaurante. Orgulho de ter o trabalho reconhecido. Pena que a sensação não durou muito. Em seguida pensei "puts, lá vem pergunta besta! Tanta coisa pra se falar do vinho e vou ter que contar historinha bonitinha".
Pois bem, corrijo aqui as historinhas bonitinhas já que na revista foi impossível.

1- Meu nono produzia vinho de Isabel. Daí a simpatia mal vista que tenho até hoje por vinho de garrafão. Como vou negar parte tão importante da minha história?
2- Eu era uma curiosa de tudo, ainda mais que hoje. O vinho me pegou porque estou há uns 8 anos estudando e ainda não sei nada a seu respeito. Se já soubesse tudo perderia o interesse.
3- Não considero o curso que fiz bom. Sequer considero razoável. Tive alguns poucos professores maravilhosos, mas a ABS me decepcionou demais. Tenho diploma se é isso que interessa, mas não o considero suficiente.
4- Sommelière, oficialmente, com carteira assinada como tal, há meio ano. De resto nesses anos todos fui uma quase-quase-sommelière.
5- Pura verdade.
6-Ah, tá... os rótulos que EU escolhi o fiz com carinho, com respeito ao cliente e com a certeza de que fiz meu trabalho direito. O restante foram obrigações com importadoras, donos, mercado e mais um sem-número de coisas. Ainda que a carta leve meu nome, está far far away de ser como eu sonho que seja.
7- Como é que deixaram de fora a parte que digo que "beber sempre o mesmo vinho é como estar em um hotel em Paris, frente ao Louvre e passar o dia inteiro assistindo televisão"?!

18 dezembro 2008

Em Casa de Ferreiro... - Glamour da Profissão

Aqui estou eu, 05:22 da manhã, ainda sem dormir e cheia de trabalho amanhã, quer dizer, hoje.
A razão disso? A chuva que não pára de cair e muito trabalho. Ando trabalhando como um mouro (será mesmo que eles trabalhavam tanto?). Restaurante lotado, muitos eventos e apenas um uniforme, algumas dúzias de meias, calcinhas e roupas sujas que não se lavam sozinhas. Um namorado e três gatos carentes, geladeira vazia enquanto meu estômago ronca. Ainda bem que a padaria abre daqui a pouco.
Festas adiadas, folgas futuras conseguidas a muito custo. Enfim, o caos, e eu aqui, sem nenhuma garrafa de vinho pra beber, embora o caos tenha sido causado, em última instância, pelo vinho.
Mas embora cansada, sem comer e sem dormir, estou muito feliz, obrigada! O ano que está acabando foi incrivelmente produtivo. Terminei o curso e me livrei definitivamente da ABS Minas, que agora vai habitar apenas meus pesadelos. Os problemas do trabalho estão se resolvendo. Até consegui um isolamento térmico na adega-vitrine!
Claro, não foi fácil. Tive que fazer coisas que imaginava impensáveis até cansar de não ser ouvida: passei por cima da autoridade de meia dúzia de pessoas, levei uma bela "comida" (no mal sentido)e tenho meia dúzia a mais de pessoas que me detestam. Mas consegui. Sinceramente? Tô nem aí, desde que os "meus" vinhos fiquem protegidos.
Enquanto levava a bronca pensei em tentar explicar o que as mudanças que eu solicitava significavam, mas desisti, me engasguei.
Quem não ama o vinho não pode entender, está além da sua percepção.
Ano que vem tem mais se eu sobreviver. Tenho cá meus planos. Preciso de dinheiro (alguém topa um assalto ao trem pagador?) pra viajar à Europa ou não posso me considerar sommelière. Preciso de uma adega cheia de vinhos em casa, para momentos solitários como esse. Ou para qualquer outro momento, oras!
Preciso encontrar mais pessoas que amem o vinho da mesma forma que eu e preciso encontrar menos pessoas que apenas se aproveitam do vinho.
Preciso estudar mais, mais, mais. Quero rever país por país, lei por lei, uva por uva.
Mas agora o que preciso mesmo é de uma boa cama ou vou começaraescrevercoisassemnexoamsfbkasdjyerkjgas.

04 dezembro 2008

Hipopótamos Em Loja de Vidros - Vinho Como Causa

Como meus três leitores sabem, finalmente me formo.
Como acho que aprendi muito pouco durante o curso, resolvi rever país por país, e vou começar pelo Chile. Mas porque Chile?!
Há bem pouco tempo atrás estava enjoada de ouvir falar a respeito de vinhos chilenos. Talvez o fato de ter passado 2 anos e meio estudando Itália e degustando chilenos, Portugal, degustando chilenos, Espanha, com chilenos, harmonização de cozinha mediterrânea com... chega!
Endende agora?
Mas surpreendentemente (ou nem tanto) revi meus conceitos, e hoje entendo porque o país é tão popular. Existem excelentes vinhos por lá, com preços acessíveis e blábláblá.

Mas o post não é sobre isso. É sobre como minha visão a respeito do vinho está mudando. Por muitas razões.
Como bem me disse o Alex, a fase de profundo romantismo é a melhor. E sinto que a estou deixando para trás. É inevitável, sei disso. É como a paixão ou tesão irem se transformando lentamente em amor.
Outras vezes, como ontem, dá vontade de mandar tudo à merda e partir para vender pneus ou virar hippie. Mas o fato de não estar só finalmente me consolou. Um amigo sommelier desabafou comigo ontem e percebi que temos problemas muito parecidos.
O principal deles é o fato de que apesar de ambos amarmos o vinho e nos dedicarmos imensamente à ele, ironicamente somos os últimos a tomar qualquer decisão a seu respeito em nossos trabalhos.
Consultam o maitre, os garçons, a faxineira. Por último, consultam o sommelier. Tanto faz se os outros não sabem a diferença entre Cabernet Sauvignon e Côtes Du Rhône, pois quem faz isso não sabe diferenciar “pinóti nôir” de colheita tardia...
Não sei do que chamar isso. Repulsivo? Desconcertante?
Perguntei ao meu amigo porque continuamos insistindo em equilibrar os cristais para que os hipopótamos passem entre eles. Ele não estava em condições de responder, revoltado por ver tanto esforço e trabalho sendo desprezados.
Nem precisava responder. O vinho é uma Causa, ambos sabemos disso.