23 fevereiro 2012

Páginas


Há tempos venho sendo cobrada pelos meus três leitores a escrever um livro.
A ideia, no começo inimaginável, foi ganhando força e chegou ao ponto de eu me decidir por escrever. Mas antes de começar precisava de férias, arejar a cabeça, fazer uma faxina no sótão da memória e deixar tudo preparado para receber as novas ideias.
Voltei das férias e perdi a inspiração. Durante semanas sequer sentei na frente do computador para escrever. Uma dúvida começava a surgir e não tardei a descobrir que estou com medo.

Escrever um livro é diferente de ter um blog ou postar textos no Facebook. Livro é coisa séria, tem cheiro e não tem tecla de backspace, fica na livraria exposto, à mercê de qualquer um.

Meus textos não são escritos em linha de produção. Eu gesto e dou à luz cada um deles e nem sempre é um processo fácil.  Tenho medo (curiosamente, uma vez que me exponho tanto na net e no olhar) de expo-los aos olhos da crítica implacável. Sinto medo de deforma-los para que se adaptem ao gosto do consumidor, tal qual um produtor adapta seu vinho para que seja bem visto pela imprensa especializada.

Em um livro a minha opinião passa a ser definitiva, e definitivamente, não tenho opiniões definitivas. Diferentemente do blog, não posso alegar perda de senha se falar alguma bobagem. Além do mais vou me matar de angústia relendo os textos e pensando que “poderia ter ficado melhor” ou vendo erros grosseiros de português que não poderei corrigir.

Mas quando o imagino, a capa, as fotografias, os agradecimentos e dedicatórias de oito páginas e os textos orgulhosamente diferentes dos demais textos sobre vinho, penso que pode valer a pena e me iludo como qualquer mãe.

20 fevereiro 2012

Engrenagem


Obviamente o cliente que freqüenta restaurante não tem obrigação alguma de saber como ele funciona. Cliente quer chegar, sentar imediatamente, ser bem atendido, comer bem, beber um bom vinho e sair feliz.

Adoro psicanálise, posso perfeitamente fazer terapia sem jamais ter lido Freud, mas em algum momento poderei achar estranha alguma atitude tomada pelo psicanalista. Porém se eu tiver algum conhecimento a respeito do assunto certamente prestarei mais atenção aos meus sonhos ou terei mais insights. E compreenderei com mais facilidade as atitudes do meu terapeuta.

Do mesmo modo, sabendo um pouco mais sobre o funcionamento de um restaurante é possível evitar aborrecimentos. Um exemplo?
Filas. Voce e seu marido podem estar esperando uma mesa ser desocupada e estar em segundo lugar na lista de espera. Porém uma grande família que estava lá no sétimo lugar passa na sua frente. Nem sempre é por conta de um membro dessa família trabalhe no governo (acredite, ainda existem pessoas éticas). O mais provável é que uma mesa para seis pessoas tenha sido desocupada antes daquela de dois lugares.

Normalmente o salão do restaurante é dividido em “praças”. Cada garçom fica com uma delas e atende determinado número de mesas. O serviço ficará mais eficiente se os pedidos forem feitos somente àquele garçom responsável por sua mesa. Do contrário o mais provável é que o garçom de outra praça repasse o pedido ao que atende a sua mesa. E isso pode virar um telefone sem fio. Daí a razão de algumas vezes voce pedir uma coca e receber uma alcachofra. Ele também pode sair temporariamente da sua praça original e lhe atender, o que retardará o atendimento de outras mesas.

Comida contemporânea é comida autoral. Um chef de cozinha jamais preparará os pratos de outro da mesma forma. O máximo que poderá acontecer é voce ter uma bela cópia de um Van Gogh. Mas original só mesmo aquele pintado pelo próprio artista.
Portanto, assim como quando voce toma um vinho da Borgonha está bebendo a região, quando prova a comida de um chef está... Bom, acho que  dessa vez a analogia ficou exagerada...

Outra confusão costumeira é em relação ao tempo em que sua mesa recebe os pratos. Muitas vezes a mesa que pediu depois de voce comerá antes. Porque? Talvez eles não tenham pedido entrada, talvez os pratos que foram pedidos sejam de preparo muito mais rápido. Claro que a cozinha também pode ter trocado a ordem das comandas, mas essa não é a única alternativa.

Quando um cliente pede para que a carne seja passada novamente por não ter vindo no ponto pedido, a cozinha terá que interromper momentaneamente a produção e cuidar disso imediatamente. De quem é a culpa? Melhor contratar um advogado. Pontos de carne são como a constituição: altamente interpretáveis.

Outra coisa importante a saber é que a cozinha é um ambiente pouco favorável. É quente, cheia de perigos, stressante e repleta de armas. Praticamente um treinamento para o inferno. Trabalhar em uma cozinha é exaustivo, tanto que, segundo a Folha, um terço dos estudantes de Gastronomia desistem da profissão antes de se formar ou ao cair em uma cozinha real. Claro que isso não justifica o fato de o seu prato de camarão ter chegado salgado demais, mas explica porque às vezes as coisas não dão certo.

07 fevereiro 2012

Safras

Em 1995 eu tinha 21 anos. Havia acabado de voltar para casa depois de 5 anos morando em outro estado.
Foi um ano feliz de retorno, quando encontrei minha família morando em outra casa, forrei uma parede do meu quarto de jornais velhos e pixei frases anarquistas sobre eles.

Nesse ano fiquei amiga da minha irmã Cleusa. Ela tornou-se a companhia das baladas de sábado. Recomecei a estudar, fiz dezenas de amigos novos e reconquistei os antigos.
Em 1995 minha irmã Sandra teve seu primeiro filho, meu primeiro sobrinho, numa fria noite de inverno. E vi a maior estrela cadente.

De 1980 lembro de pouca coisa. Eu tinha 6 anos e odiava dormir cedo. Colava figurinhas transfers de chiclete sobre o contador de energia elétrica, brincava com Cíntia, minha melhor amiga, e ainda não conhecia a escola. Nesse ano aconteceram as Olimpíadas na União Soviética e foi lançado o filme Star Wars.

Em 1995 Luís Henrique Cardoso assumiu a presidencia e Os Paralamas do Sucesso não puderam tocar "são 300 picaretas com anel de doutor". Nesse ano aconteceu a internet.