22 agosto 2011

Beleza e Realidade

Não ouvi muitos contos de fadas quando criança. Minha mãe não era carinhosa (ou involuntariamente inescrupulosa) o suficiente para me fazer dormir ouvindo finais clássicos que terminavam em "viveram felizes para sempre".

Ainda assim, como a grande maioria das pessoas, acreditei durante décadas em contos de fadas. Há um consenso geral de que a felicidade é obtida quando se ganha dinheiro, constitui família, tem um carro, vinhos caríssimos na adega, viaja pelo mundo e encontra um parceiro "ideal".

Não é a toa que tantas pessoas que estão nessas condições percebem o engodo no qual caíram. Casamentos se desfazem, obter sucesso também gera perdas. De amigos  e liberdades. Filhos cansam, vinhos por vezes decepcionam, viagens não tampam buracos, dinheiro não compra paz de espírito.

Em algum momento de nossas vidas teremos que nos confrontar com a realidade.
Essa experiencia costuma ser desastrosa para muita gente, inconformada de ter se esforçado tanto para chegar "tão longe" e ter conseguido com isso apenas se afastar da felicidade.

No alto dos meus 37 anos, tendo uns bons vinte de ateísmo e uma coleção de relacionamentos amorosos, familiares e profissionais desastrosos, posso dizer que encarei a Realidade. E como acontece com todo mundo, ela me apavorou. Então deus não existe? Então a Vida é regida pelo Caos? O Lafite não é uma experiencia tão incrível assim, nem todos os meus amigos amigos me aplaudem quando venço, nem sempre tenho paciencia com crianças, posso ser cruel, a felicidade não dura 24 horas/dia?

Durante anos a Realidade me seguiu, calada. Apenas sua gélida presença fazendo-me lembrar da minha condição humana.

Depois de muito tempo, exausta, sem folego para continuar fugindo, sem ânimo até mesmo para continuar sentindo medo, parei e encarei-a. E olhei no fundo dos seus olhos.
E o que vi foi uma profunda e incompreendida beleza.

Vou morrer, meu corpo se deteriorará e se fundirá com o solo. O mesmo solo que abrigou centenas de milhares de outros seres que por ser vivos, morreram também. Alimentarei a terra e a vida continuará se alimentando de mim. De forma indiferente, sem marcas especiais que prezamos tanto em vida. Toda a minha história, os vinhos que bebi, os amores que senti, minhas dúvidas, promessas, crueldades, apetites e corpo serão completamente esquecidos e se tornarão uma infinitamente pequena parte do Todo.

Encarar a Realidade e perceber isso foi o maior presente que me permiti.

Não quero, preciso ou posso levar uma vida de contos de fadas. A Realidade pode ser muito mais bela. Com ela percebo o que é importante de fato, o que faz a diferença em vida, porque quando a morte vier, não importa de que forma, tudo o que fiz ou acumulei vai se tornar insignificante.

Obviamente, existe uma enorme diferença entre Apego e Insanidade. Queimar o carro, rasgar as roupas de marca e viver de caça seria apenas o inverso de se afeiçoar à coisas que não merecem tanta importancia e causaria danos muito semelhantes. Penso que o caso seja SABER que uma garrafa de vinho é apenas uma bebida, ainda que se leve em conta a sua importancia.

O amor pode ser belo E real. Não existe felicidade permanente e certo grau de frustração nos relacionamentos é uma coisa muito saudável. Saber amar apesar dos defeitos humanos, distancias, incompreensões, pressões externas e internas e com a perfeita consciencia de que cada um de nós jamais será completo, é necessário, saudável, belíssimo e REAL.

A Realidade não mora em um castelo, tampouco empunha uma varinha de condão. Também não é uma bruxa manipulando um caldeirão. Apenas É, e pode ser bela para quem tem olhos sensíveis à beleza.