29 janeiro 2011

Complexo de Virgem Maria

Algumas perguntas me atormentam há anos. Ficam martelando na minha cabeça e incomodando como me incomoda a reforma do apartamento de cima.


Uma dessas perguntas é porque, afinal de contas, seres humanos dotados de sexualidade, aquela mesma responsável pela sua própria existência, fazem de tudo para transformar o sexo em uma coisa tão perversa (do latim perversus, posto às avessas, irregular, vicioso)?

Tenho uma teoria de não especialista, que não explica tudo mas alivia as marteladas.

Chamo a tendência humana a transformar o sexo em motivo para guerras, violência e machismo de Complexo de Virgem Maria.

Não conheço muito a História, mas acredito que, para os nossos antepassados muito distantes observar uma mulher sangrando todos os meses e ainda assim sobrevivendo soava como algo extraordinário e divino. Ver a barriga de uma mulher crescendo e gerando uma nova vida sem ter o conhecimento de como isso acontecia deveria ser considerado um verdadeiro milagre.

Por isso acredito que tenham existido sociedades matriarcais onde as mulheres eram consideradas verdadeiras deusas. Se eram sociedades mais justas eu não questiono, sei que o poder corrompe independentemente do gênero de seus detentores.

Estima-se que apenas cerca de 3.000 anos a/C é que o homem finalmente descobriu sua participação no processo do “fabrico” da nova vida. Parece que então a mulher começou a ser considerada uma coadjuvante, apenas o vaso que recebe a semente. Lembre-se que há apenas algumas décadas descobriu-se que ambos os gêneros contribuem com partes iguais para a geração de uma criança.

A partir desse momento criou-se a ideia do domínio da mulher. É natural imaginar os homens da época, quase sempre tendo que lutar por alguma coisa, querendo gerar cópias de si mesmo. Para que isso acontecesse era necessário manter o “vaso” fora do alcance de outras sementes.

Como se sentiram essas mulheres, antes deusas respeitadas, acreditando elas mesmas não serem geradoras de vida, mas meros vasos? Será que tentaram tomar o poder novamente e foram reprimidas à força bruta? Será que argumentaram sobre a importância da terra fértil? Será que foram ouvidas?

Acredito que muita coisa a respeito das mulheres do passado foram apagadas meticulosamente por homens necessitados de provar sua superioridade.

O resto da história todos conhecemos bem. Mulheres subjugadas, tratadas como seres desimportantes, como objetos.

Adiante, em um passado mais recente e marcante, vejo o exemplo imposto de Maria, a Virgem. De uma virgem nasceu o salvador. De uma mulher “imaculada” (que não tem mácula, pura), sem a impureza do pecado original, o sexo.

A Virgem Maria virou exemplo de como deve ser uma mulher. Doce, virgem, pura, mãe, capaz de agüentar qualquer aflição e totalmente submissa às vontades de seu senhor.

A oração da Salve Rainha é uma das coisas mais horríveis que já vi.

Os “degredados filhos de Eva” tornam-se apenas filhos da mãe, sem pai. A “doce e sempre Virgem Maria” está disposta a interceder junto a seu filho pedindo misericórdia depois que todos passemos pelo “vale de lágrimas”.

Apenas a mãe é sagrada, e como ninguém além de Jesus nasceu de forma que desvie do sexo, não basta ser mãe para ser sagrada, mas é necessário se manter virgem até o último segundo.

Esse é um dos exemplos mais nocivos do qual tenho notícia.

Vejo como Complexo de Virgem Maria essa busca insana de ser ou ter um modelo como esse.

Nas mulheres a culpa carregada há séculos causou danos quase sempre irreparáveis. Precisamos empurrar nossos instintos sexuais para o fundo de nossas almas para não sermos comparadas ao oposto da Virgem: a Puta. Precisamos ainda hoje, nessa sociedade pseudoliberal, sermos a “mulher de um homem só”, mentir sobre nossas vidas sexuais, disfarçar nossos desejos, ou correremos o risco de não sermos vistas como sagradas mães.

Não é a toa que a maioria das mulheres jamais teve um orgasmo. Como é possível sentir prazer carregando o fardo de ser como a Virgem?

Os homens, também vítimas e algozes, seguem o modelo imposto. A mãe é a Santa, a sagrada. A mulher com quem ele terá filhos será vista como santa, será respeitada, ficará na redoma de vidro.

Mas os instintos masculinos não são considerados impuros. Permanece nos homens, mesmo os mais lógicos, a ideia de que é preciso proliferar a sua própria raça e encher o mundo de cópias de si mesmo. Conheço homens inteligentíssimos que acreditam piamente na naturalidade do sexo promíscuo para eles e na satisfação das mulheres com apenas um homem por toda a vida. É o que acontece quando se tem como modelo de mulher uma Virgem.

Poucos homens parecem conseguir entender que não é justo, nem sensato, tampouco natural ou saudável separar as mulheres em duas categorias, a Santa e a Puta. Poucas mulheres conseguem se desfazer da imagem de que são bem mais que categorias.

Mulheres cansam do mesmo corpo, do mesmo cheiro, da maneira repetitiva como o sexo é feito. Cansam do mesmo parceiro, exatamente como os homens. Desejam outros homens, querem sexo de todas as formas que os homens querem. Mas reprimem, viram santas mães.

Uma das reclamações masculinas mais freqüentes a respeito das mulheres é sobre como elas deixam de ser mulheres e passam a ser apenas mães depois de terem filhos. Ora, esse padrão de comportamento prejudica tanto os homens como as mulheres, mas é cobrado por ambos. Porque fazemos isso? Talvez porque seguir modelos, por piores que sejam, seja mais cômodo, talvez porque não passemos de rebanho, talvez porque seja necessário, talvez tudo isso ou nada disso.

10 janeiro 2011

O Tal do Clube ou Sobre as Não Diferenças

Já fui feminista precoce ferrenha. Afinal de contas, tinha que defender a minha condição imutável do desejo de meu pai por um filho homem.

Por outro lado fiz de tudo para transformar-me em um homem. O resultado é que sou uma espécie de aberração. Não resisto à defender as mulheres mas não suporto viver em seu meio. Odeio as típicas frescuras e indecisões atribuídas à personalidade feminina e odeio ser obrigada a reconhecer que quase sempre isso condiz com a realidade.

Defendo bravamente a minha tese de que as mulheres e homens são iguais a princípio. As diferenças entre os gêneros, penso eu, surgem da educação que recebemos. Para mim isso é claro como o dia. Tenho até um nome para isso: Complexo de Virgem Maria. Um dia ainda escrevo a respeito...

Quanto mais envelheço, menos próxima sinto-me das mulheres. Talvez seja porque vejo todas as minhas amigas casadas, cheias de filhos, frustradas, sexualmente insatisfeitas. Não tenho sobre o que conversar com as mulheres. Falarei sobre um marido que não tenho, sobre filhos que não tenho? Se eu abrisse a boca para falar a elas o que penso, não me sobraria uma única amiga. Meu universo não gira em torno daquilo que giram seus universos. Talvez meu universo pareça a elas tão desprezível quanto o delas me parece.

A mim pareceu, durante muitos anos, muito mais interessante o universo masculino. Se a minha lógica estivesse correta, não haveriam diferenças consideráveis no Clube do Bolinha. Mas pelo menos a conversa parecia fluir de forma mais interessante. Sabia que pelo menos não ouviria o tempo todo conversas sobre filhos.

Agora tenho a oportunidade de participar de um legítimo clube masculino.

Não chamaria de decepção, embora haja um pouco desse sentimento quando estou no clube. Levou certo tempo para que os homens falassem um pouco mais a vontade perto de uma mulher. Ainda me olham com estranheza (a mesma com que as mulheres me olham).
A chave que abre as bocas no Clube do Bolinha é o álcool. No Clube das Lulus não há chaves. As mães de trinta e tantos anos não são mais mulheres, destruíram a chave que pode recuperá-las. O tal do Complexo de Virgem Maria.

Apesar dos olhares de estranheza aos poucos os Bolinhas vão agindo com naturalidade. A conversa não podia ser pior. Gira em torno de pegar mulheres. Contam histórias onde se transformam em personagens de cinema e todos fingem que acreditam uns nos outros. Fazem coisas toscas como arrotar alto e poses de homens das cavernas. Falam sobre os homens e mulheres ao redor, sobre como tal homem com cara de gay consegue pegar aquela mulher gostosa, sobre como o comportamento gentil de tal sujeito é coisa de gay. O tal do Complexo de Virgem Maria não atinge apenas as mulheres. Lembra as minhas amigas falando com inveja sobre os corpos mais bonitos que os delas.

Não há diferenças consideráveis entre os dois clubes. Claro que não há. Somos humanos educados de forma diferente conforme o gênero.

Talvez a única diferença considerável seja a chave, ainda que ela seja dada pela cultura imposta aos homens.
A pose de homem das cavernas, a conversa na qual ninguém acredita, enfim, toda a falácia parece ser um tipo de sublimação e o Clube dos Bolinhas o divã onde isso acontece.


As Lulus não possuem essa chave. Recolhem-se no seu mundo de fraldas da maneira como foram ensinadas, viram as santas que os homens esperam ter em casa, presas na redoma sem saída, virgens Marias, louvadas e respeitadas, mas não comidas, não satisfeitas. Instintos mortos com requintes de crueldade. Bem pior que ter o clitóris decepado.

Pior que ter a prova de que não há diferenças consideráveis entre homens e mulheres é concluir que somos todos, homens e mulheres, vítimas e algozes de nós mesmos.

A Degustação sem Chatice e Sem Frescura parte 01 - Armazém Bacco

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