14 agosto 2009

Vinho Tinto de Sangue - Um Dia Qualquer

Pela janela do ônibus vi o cadáver. Jazia caído vestindo roupas da moda, anelão no dedo da mão que permanecia levantada, encostada na entrada da boate famosa por dar briga. Da cabeça que estava de lado pela última vez, saía um líquido espesso, vinho quente, escorrendo entre o rejunte da calçada.
Ao lado, mas curiosamente não tão perto, estavam as pessoas espantadas ou habituadas. Uma jovem chorava e não era consolada pelo namorado e outras tantas faziam gestos e apontavam direções.
Alguns traziam no rosto uma expressão que já vi muitas vezes diante da morte: um misto de excitação e prazer nervoso.
Da janela do ônibus perguntei-me o que eu mesma estava sentindo. Não foi surpresa, não foi dor, tampouco a excitação nervosa. Pareceu-me uma cena de programa policial sendo vista da tela da janela do ônibus.
O corpo que jazia era jovem e fiquei imaginando o que ele teria feito antes de encontrar a morte, antes de colocar o anelão no dedo pela última vez. Era sábado e o fim de semana das pessoas que amam o rapaz (pois o amor não morre com a morte) seria o pior das suas vidas. Em breve uma mãe receberia um telefonema, uma namorada choraria.
Os transeuntes que estavam vindo alguns quarteirões adiante veriam um morto, uma funerária seria contactada, alguns policiais eficientes ou não recolheriam o corpo e procurariam por documentos enquanto falam sobre o fim de semana.
O assassino estaria correndo, ainda por perto? Esconderia a arma? Se esconderia? Pensaria no futuro ou estaria rindo malevolamente como nos filmes?
O ônibus andou, andou, andou. E eu, que não senti nada pelo morto, não paro de pensar no grosso vinho escorrendo pela calçada.