Como eu disse ao Guilherme ontem, enquanto conversávamos pelo MSN, estou tentando superar meu horror a degustações públicas. Hoje exercitei meus nervos indo a uma degustação de Cognacs e palestra sobre charutos.
Estavam presentes mais umas 15 pessoas, a maior parte meus conhecidos, um simpático produtor (da região de Cognac, naturalmente) e o palestrante que falou sobre charutos e ficava interrompendo Monsieur Jacques o tempo todo.
Depois da degustação, que aconteceu na Casa do Porto, desci para a loja para comprar o livro do Nicolas Joly, Vinho do Céu à Terra. Um colega do curso que trabalha na loja perguntou-me (naquele tom que está se tornando familiar) porque eu não havia ido na palestra sobre café que aconteceu ontem. Eu expliquei que estou envolvida em muita coisa e se estudar café (ou mesmo Cognac ou charutos) vou perder o tempo que poderia estar usando para estudar vinho. Ele me olhou de uma maneira que também está se tornando familiar (uma mistura de desdém e incredulidade) e disse que ele (claro!) acha muito bom estudar dois assuntos completamente diferentes, pois isso é “estimulante”. Não discuti, mas voltei para casa pensando a respeito. Poucos temas são tão vastos e abrangentes quanto o vinho, e tenho perfeita consciência que uma vida inteira de estudos não é suficiente para saber tudo a respeito. O café é interessante, como os destilados, os chás, os charutos e os azeites. Mas eu escolhi o vinho, então é no vinho que vou me concentrar. Se eu quiser aprender alguma coisa sobre café, pesquiso na internet, afinal não pretendo me tornar barista, assim como não pretendo (ao menos por hora) tornar-me epicure-sommelière, bartender ou seja-lá-o-que-for.
Há um senso-comum a respeito do Tempo: ele deve ser usado todo, até o último segundo, afinal, a vida é uma só.
E tornou-se verdadeiro crime não trabalhar ou estudar pelo menos 12 horas por dia (ou pelo menos mentir que trabalha e estuda esse tempo todo).
Outro senso-comum é a respeito da Informação, que deve ser absorvida, analisada, aceita, decodificada e utilizada – adivinhem!- no menor tempo possível.
Oras, eu, esse estranho Ser, não faço download, não tenho conexão rápida nem gigas e gigas de HD para ser usado com qualquer coisa. Não sou um personagem do Neuromancer. Estou mais para a descrição que Sherlock Holmes fez do cérebro (não lembro em qual livro): um sótão onde para cada coisa que você queira guardar seja necessário tirar outra ou chegará a um ponto em que nada mais caberá ou tudo estará entupido de poeira.
Dessa forma, prefiro me concentrar de coração e alma à um único e vasto tema que deixar meu então organizado sótão virar uma espelunca.
Nada a ver:
se tem uma música que eu odiaria ouvir se fosse um náufrago é aquela que diz "não chores mais... tudo tudo tudo vai dar pé...)
21 outubro 2008
14 outubro 2008
Erro Crasso - Cego Guiando Cego
Almocei em um famoso restaurante da cidade. Perguntei sobre vinho em taça, já que estava sozinha e não queria beber uma garrafa inteira. Fui atendida por dois garçons e o diálogo que se seguiu foi mais ou menos esse:
Garçom 01, empolgado- Temos taça sim, tem vinho suave, também!
Eu, assustada - Não, obrigada, eu quero uma taça de vinho branco seco. Qual vinho vocês servem?
Garçom 01, ainda empolgado - Miolo, mas tem o suave também!
Eu, já chateada - Realmente não quero o suave. Qual Miolo vocês têm?
Garçom 01, fazendo enorme esforço mental - Reserva.
Eu, duvidando, mas já resignada – Me traga uma taça, por favor.
Garçom 01, sério, para Garçom 02, atento – Traga a taça.
Garçom 02, triste, para Garçom 01, ainda sério – Não sei onde está.
Garçom 01, em tom de confidência, para mim – Desculpa, ele está passando hoje da copa para o salão e eu ainda estou ensinando tudo sobre vinho para ele, por isso ele não sabe onde estão as garrafas.
Garçom 01, empolgado, para Garçom 02, empolgado – Prestou atenção como eu vendi o vinho? Observe e depois faça como eu. Mais tarde vou te falar o que é cabernéti e merlóti, tá certo?
E ainda tem gente que acredita que o sommelier é um profissional dispensável!
Garçom 01, empolgado- Temos taça sim, tem vinho suave, também!
Eu, assustada - Não, obrigada, eu quero uma taça de vinho branco seco. Qual vinho vocês servem?
Garçom 01, ainda empolgado - Miolo, mas tem o suave também!
Eu, já chateada - Realmente não quero o suave. Qual Miolo vocês têm?
Garçom 01, fazendo enorme esforço mental - Reserva.
Eu, duvidando, mas já resignada – Me traga uma taça, por favor.
Garçom 01, sério, para Garçom 02, atento – Traga a taça.
Garçom 02, triste, para Garçom 01, ainda sério – Não sei onde está.
Garçom 01, em tom de confidência, para mim – Desculpa, ele está passando hoje da copa para o salão e eu ainda estou ensinando tudo sobre vinho para ele, por isso ele não sabe onde estão as garrafas.
Garçom 01, empolgado, para Garçom 02, empolgado – Prestou atenção como eu vendi o vinho? Observe e depois faça como eu. Mais tarde vou te falar o que é cabernéti e merlóti, tá certo?
E ainda tem gente que acredita que o sommelier é um profissional dispensável!
06 outubro 2008
Degustações e Superegos - Quem Enlouqueceu?
“Perdi” uma degustação de vinhos do sul da França na semana passada.
Um amigo da mesma profissão perguntou-me que tipo de sommelier eu sou perdendo uma degustação. Acaso não sei que durante as degustações é possível fazer contatos e conhecer todo mundo?
Senti-me um tanto violada com o tom da pergunta, mesmo sabendo que a pessoa não teve essa intenção.
Ninguém mais que eu se pergunta, que tipo de sommelière eu sou, afinal...
Talvez eu seja o tipo de sommelière que não gosta de degustações públicas, por inúmeras e boas razões.
Quando vou a uma degustação sou a primeira a chegar, e também a primeira a sair. Gosto de conversar com as pessoas que estão oferecendo o vinho, descobrir coisas além de tempo na madeira, corte, terroir. Quero ouvir o que o produtor tem a dizer, tentar capturar o que passou dele para o vinho. Se a conversa não flui, apenas pego a taça e me afasto. Chego cedo para não encontrar os stands entupidos de gente gargarejando, procurando os “tops”, não deixando espaço para os outros convidados que chegam e têm o mesmo direito de se aproximar e degustar.
Não suporto a briga de vinícolas em degustações grandes, como a Expovinis, stands cercados de modelos gostosas (em breve, penso eu, vestindo apenas biquínis para atrair mais atenção).
E não faço questão nenhuma de ver ou fazer contato com a grande maioria dos freqüentadores dessas degustações. Posso descrever em detalhes o que acontece nas degustações belorizontinas:
Há o colunista famoso que chega com ar superior e sai totalmente bêbado, o futuro sommelier que pensa que sabe mais que o colunista famoso, o sujeito que é totalmente desagradável, o cara que só vai pela "boquinha". Aquele que é amante da cerveja, mas o patrão o obrigou a fazer o curso de sommelaria, a pessoa que pensa que o vinho vai lhe trazer um status social capaz de acabar com sua completa ignorância, o sujeito importante que rouba garrafas de vinho. E, por fim, o grupinho dos sommeliers “experientes”, que estão há anos no mercado e morrem de medo se ser superados.
E, tal como nas grandes feiras, há uma disputa mal dissimulada entre os pretensos conhecedores.
Claro que há o lado bacana, que, para mim se resume à possibilidade de conhecer mais vinhos e ter conversas interessantes com pessoas que considero sim, conhecedoras de verdade. Mas veja o preço que tenho que tenho que pagar por isso!
Um amigo da mesma profissão perguntou-me que tipo de sommelier eu sou perdendo uma degustação. Acaso não sei que durante as degustações é possível fazer contatos e conhecer todo mundo?
Senti-me um tanto violada com o tom da pergunta, mesmo sabendo que a pessoa não teve essa intenção.
Ninguém mais que eu se pergunta, que tipo de sommelière eu sou, afinal...
Talvez eu seja o tipo de sommelière que não gosta de degustações públicas, por inúmeras e boas razões.
Quando vou a uma degustação sou a primeira a chegar, e também a primeira a sair. Gosto de conversar com as pessoas que estão oferecendo o vinho, descobrir coisas além de tempo na madeira, corte, terroir. Quero ouvir o que o produtor tem a dizer, tentar capturar o que passou dele para o vinho. Se a conversa não flui, apenas pego a taça e me afasto. Chego cedo para não encontrar os stands entupidos de gente gargarejando, procurando os “tops”, não deixando espaço para os outros convidados que chegam e têm o mesmo direito de se aproximar e degustar.
Não suporto a briga de vinícolas em degustações grandes, como a Expovinis, stands cercados de modelos gostosas (em breve, penso eu, vestindo apenas biquínis para atrair mais atenção).
E não faço questão nenhuma de ver ou fazer contato com a grande maioria dos freqüentadores dessas degustações. Posso descrever em detalhes o que acontece nas degustações belorizontinas:
Há o colunista famoso que chega com ar superior e sai totalmente bêbado, o futuro sommelier que pensa que sabe mais que o colunista famoso, o sujeito que é totalmente desagradável, o cara que só vai pela "boquinha". Aquele que é amante da cerveja, mas o patrão o obrigou a fazer o curso de sommelaria, a pessoa que pensa que o vinho vai lhe trazer um status social capaz de acabar com sua completa ignorância, o sujeito importante que rouba garrafas de vinho. E, por fim, o grupinho dos sommeliers “experientes”, que estão há anos no mercado e morrem de medo se ser superados.
E, tal como nas grandes feiras, há uma disputa mal dissimulada entre os pretensos conhecedores.
Claro que há o lado bacana, que, para mim se resume à possibilidade de conhecer mais vinhos e ter conversas interessantes com pessoas que considero sim, conhecedoras de verdade. Mas veja o preço que tenho que tenho que pagar por isso!
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